Crônicas

O poema visual como ato político na atualidade

Tchello d'Barros
Escrito por Tchello d'Barros

“O maior castigo para aqueles que não se interessam por política,
é que serão governados pelos que se interessam”.

Arnold Toynbee

A produção brasileira e internacional em Poesia Visual convida-nos a refletir sobre uma questão essencial da arte em nossa contemporaneidade: onde o espaço, momento ou circunstância do encontro entre o poema visual e quem vai usufruir dessa imagem? Para além das tradicionais mídias impressas ou das rarefeitas exposições, é certo que temos hoje também as novas tecnologias e os ambientes virtuais onde se prolifera a produção atual. No entanto talvez possamos considerar que o lugar do poema visual seja todo lugar onde possa causar reações estéticas, mas mais que isso, onde possa comunicar, seja por uma vertente mais plástica, seja por uma via mais incisiva, mais crítica.

Oportuno lembrar que esse segmento sempre tão experimental que constitui a Poesia Visual sobreviveu aos ismos e modismos do Século XX, ganhou terreno nos novos meios digitais e segue na atualidade como espaço intersemiótico entre a Literatura e as Artes Visuais. Com cada vez mais adeptos, ampliam-se os circuitos de veiculação de poemas visuais no mundo, diversificam-se as temáticas e multiplicam-se os suportes para sua apresentação.

Consideremos apenas como exemplo a exposição de poesia visual Imagética, apresentada recentemente no Rio de Janeiro, uma mostra que trouxe nada menos que 67 artistas de 20 países, em técnicas variadas como desenho, pintura, colagem, infogravura, fotografia, reprografia, caligrafia, computação gráfica e técnicas mistas, ainda que todas as imagens estejam constituídas nos limites teóricos da Poesia Visual. Essa pluralidade de técnicas de representação expande os limites teóricos desse campo ao tempo que acentua o diálogo com as novas linguagens.

Assim, é interessante notar o quanto os temas Política e Poder norteiam as criações desta coleção de imagens, onde os autores apresentam sua visão de mundo nesse período de instabilidade na geopolítica global, de insegurança bélica, com migrações em massa e retornos de regimes totalitários. São poemas visuais que denunciam esquerdas cooptadas, destacam as lutas pelos direitos humanos, apontam as utopias da democracia, sem falar das omissões e alienações em tempo de corrupção acentuada e radicalismos de toda ordem.

Quando essa produção autoral, enquanto lúdica revela-se crítica, enquanto poética revela-se política, percebemos aí uma chave, a do comprometimento dos artistas com as questões de seu tempo e de seu lugar. Trata-se da arte como ação, como ato de criação de consciência e transcendência, comprovando o quanto um artista pode ser engajado sem ser panfletário. E nas entrelinhas, o recado dos poetas visuais nos chega provocativo: eu, você, eles e toda a sociedade, talvez sejamos em certa medida, responsáveis pelos desníveis sociopolíticos denunciados nas obras, seja de forma explícita, seja numa leitura mais subjacente.

E nessa quadratura entre emissor, receptor, meio e mensagem, pode-se ainda perceber a emergência de uma certa provocação, ainda que poetizada: temos todos os meios para sermos os protagonistas das transformações que desejamos na sociedade contemporânea.

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Sobre o Autor

Tchello d'Barros

Tchello d'Barros

Escritor e Curador de Artes Visuais. Realiza editorias independentes e curadorias em diversas instituições culturais.

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