Crônicas

O que elas temem?

Adalberto dos Santos

Fiquei lembrando do dia das mães e que esse é um assunto importante. Antes do dilúvio, Noé já se questionava. E imagino que Moisés, Buda, Confúcio e seus confusos. E, lá atrás, Adão, o que emprestou a costela para que milhares depois elas se acostumassem a usar a goela a toda força quando aparecem em sua frente bichinhos inofensivos. Que culpa terão sapos e rãs, ratinhos e insetos se não há outro mundo a morar senão o habitado pela fera louca que destrói uma casa inteira se não sabe amar uma barata?

Ontem, por sinal, tive que berrar mais que a patroa para demonstrar minha indignação com a tamanha injustiça delas, mulheres, contra nossos irmãos bichinhos: seres do convívio, seres de nossa terra, que há tempos estão por cá e não tem como deixar de existirem. Praga não, porque praga é político. E que mal fazem eles, por que pagam tanto desprezo das mulheres, madames, dondocas, mocinhas histéricas, senhoras dona de casa sem a auto-estima elevada para simplesmente amá-los como são, pobres indefesos, infelizes de feios, asquerosos, ou o quê! Embora irmãozinhos na lama e no pó.

Que desculpe a minha mãe, sei eu que tenho tanto a lhe falar, mas com baratas não sei dizer. Não se pode admitir que as de vossas espécies, e filhas e noras, brasileiras e estrangeiras, grandes executivas de metro e noventa, mulheres amadas e abandonadas à sorte do tempo, princesas de todos os continentes, beldades em charme e beleza, as que têm o perdão pela feiúra, as pobres de inteligência, as ditas pensadoras acadêmicas, as que temem a alcunha do estereótipo do livre pensamento, ninfetas acanhadas, mal passadas, apressadas ou atrevidas, tias, primas, madrinhas e avós, Amélias e Marinas, ó vós, todas vós, raça bendita que é bendito o fruto do vosso ventre, amai o homem com a viva carne de que sois feitas, mas amai também as criaturinhas que com ele caminham.

É inquestionável que sairá horrores de vossas bocas depois desta crônica. Mas algo há de ser feito. Não se pode mais deixar que derrubeis o firmamento com vossos gritos à simples lembrança de que bichinhos correm em vossos pés. Sossegai. Deixai que vivam. Aprendei: somos todos frutos de um mesmo ventre. Amém!

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Sobre o Autor

Adalberto dos Santos

Adalberto dos Santos

Cajazeirense, vive em Fortaleza, é ficcionista e cronista.

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