Crônicas

O Quinto dos Infernos

Campista Cabral
Escrito por Campista Cabral

Este texto seria apenas para falar do imposto (injusto, indigno e absurdo), mas, devido aos acontecimentos em Brasília, foi preciso pensar bastante sobre o que escrever. Foi preciso mesclá-lo a outro assunto: o impeachment.

Pagamos por tudo e até mesmo por sonhar. Pagamos o impossível por um sonho que parece impossível: um país decente, uma república de verdade!

Mas, no quinto dos infernos, fica difícil até sonhar!

Na época colonial, vir para o Brasil era considerado, por muitos, o pior dos castigos. Vir para aqui era o mesmo que ir para o inferno. Como o terrível imposto que era cobrado pela Coroa Portuguesa sobre as pedras e metais preciosos correspondia a 1/5 do que era produzido, a palavra “quinto” ficou bastante marcada ao longo do tempo. Daí a ligação entre a ideia de um lugar ruim e a imagem de peso e exploração: quinto dos infernos.

Séculos foram embora, mas a expressão continua no dia-a-dia do povo tupiniquim. Quinto dos Infernos. De D. João III para cá, a cobrança somente aumentou. Hoje, brasileiros trabalham quase meio ano para pagar os absurdos impostos. Hoje, perplexamente, pagamos o valor correspondente a 2/5 do que produzimos. Os governos da Terra Brasilis conseguiram superar os portugueses. Duplo quinto dos infernos!

O feriado de 21 de abril se aproxima. Tiradentes e os demais inconfidentes, a grosso modo, sonharam o impossível, reclamaram dos impostos e a gente sabe como termina a história! O governo, hoje, adaptaria a frase do mártir Joaquim José e diria sem constrangimento: se mil impostos eu criasse, mil impostos eu cobraria!

Quando abrimos nossos contracheques e percebemos os descontos do chamado imposto de renda, ficamos perplexos, irritados, boquiabertos, fulos da vida: pagamos por tudo. O suprassumo da tributação brasileira é, depois de termos descontados mês a mês a açoitada remuneração, fazer a declaração e pagar de novo! E pagar mais!

E somos humilhados quando vemos a festa com dinheiro público em Brasília. E pagamos por isso também!

Na capital federal, tal como a crônica da tragédia anunciada, escreve-se já o fim de um desgoverno corrupto, isolado e arrogante. E pagamos altos juros pelo desgoverno, pela isolação e pela arrogância. No entanto, com todas as críticas à ainda presidente, penso que ainda há muito o que fazer. Ainda pagaremos mais juros! Ainda pagaremos por tantos outros que desgovernam e são arrogantes. Talvez a situação mais bizarra e absurda, por exemplo, tenha sido a de um presidente da câmara sem qualquer condição de estar no cargo e presidir uma sessão tão importante. Como se diz popularmente, o sujo falando do mal lavado. E na dita sessão, desaforos de todos os lados, intrigas de uma não-oposição…

Voto a voto, a perplexidade do sim e do não deixavam atônitos os espectadores mais críticos. Mas qual o motivo do sim? Qual o motivo do não? Risível as justificativas para ambos os lados: por Zumbi e por Palmares, pelos meus filhos, pela democracia, por isso e por aquilo… E gritavam e vociferavam e gesticulavam freneticamente. Poses, dos dois lados. Fotos, dos dois lados. Palavras de efeito, dos dois lados! Mas a triste constatação de um sistema falido, podre e sem representação!

No final das contas (trocadilho idiota), entre a tropa de Dilma e a tropa de Cunha, o sistema continua do mesmo jeito. Os bailes da nova república violentamente continuarão a cobrar o suado trabalho do brasileiro. Infelizmente, em um país dividido, aos farrapos, no chão e na lama, não adianta dizer sim ou dizer não. É preciso, como Tiradentes, dar a vida de verdade por aquilo a que chamamos pátria!

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Sobre o Autor

Campista Cabral

Campista Cabral

Escritor, poeta e cineasta amador. Publicou quatro livros. O REI, O POETA, A MULHER E O MAR (contos), TERRA BRASILIS (crônicas), PARA ENTENDER UMA NOVA EDUCAÇÃO (livro voltado para os problemas da educação no século XXI) e FORMAÇÃO DOCENTE E PRÁTICAS INOVADORAS (livro sobre novas práticas docentes no ensino superior). Realiza anualmente o FESTIVAL DE CINEMA DE TERESÓPOLIS e, dentre alguns trabalhos na área, destaque para o filme NOITES COM SOL (2011) e os documentários PALAVRAS (2008), CAMINHOS EUCLIDIANOS (2012) e O QUE É FELICIDADE? (2013). Escreve regularmente para o Escritartes (www.escritartes.com) e Recanto das Letras (www.recantodasletras.com)

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