O Raciocínio dos Ossinhos

by Claudia G. R. Valle | 30/07/2017 03:47

Comecei a ler Millôr Fernandes ainda na infância. Divertido, às vezes amargo, sempre inteligente. Mesmo quando discordo dele não posso deixar de apreciá-lo e à sua vasta obra. Quase sempre era um deleite ver seus textos e desenhos.

Vou contar, à minha maneira, porque a memória não é assim tão confiável, uma das coisas que li na época do “Pif Paf” na revista “O Cruzeiro”.

Era um homem que se perdeu no deserto com o seu totó de estimação.

Passou-se um dia, outro, mais outro.

O homem adorava o bichinho, mas, morto de sede e fome, começou a olhar para ele com más intenções.

Um dia não se conteve mais: matou e devorou o cachorro.

Ao fim do repasto, olhando para a pilha de ossos, a única coisa que tinha sobrado do animal, exclamou:

“Coitadinho do meu totó… como ele gostaria de estar aqui para roer estes ossinhos…”

Essa historinha trágica, mas nem tanto, me acompanha até hoje porque descobri que de vez em quando penso como o homem do deserto. Apelidei isso de “raciocínio dos ossinhos”.

A primeira ocasião em que me dei conta de que estava fazendo esse raciocínio foi em um dia em que a minha conta bancária ia ficar no vermelho. Tive a brilhante ideia de depositar um cheque para cobrir o rombo, para no instante seguinte lembrar-me de que o cheque era dessa mesma conta, já que era a única que eu possuía.

Entro numa loja e, na hora de pagar, descubro que estou sem o cartão do banco. Penso em dizer à vendedora: aqui perto há um caixa eletrônico, vou pegar o dinheiro e volto em seguida. O raciocínio só dura uma fração de segundo, até me lembrar de que para pegar o dinheiro preciso do cartão do banco.

Às vezes esqueço o celular em casa e, claro, volto para buscar. Em geral isso significa entrar na garagem, estacionar, subir até em casa, tirar novamente o carro da garagem. É demorado, um transtorno principalmente se tenho algum compromisso agendado. Quando há gente em casa, quase sempre me ocorre que, se eu telefonar, posso pedir para alguém descer com o celular e entregar-me na porta do prédio. Telefonar, como? É justamente porque estou sem telefone que preciso fazer toda essa manobra.

O raciocínio dos ossinhos envolve resolver um problema através de uma solução que depende do problema não existir. Esse raciocínio não é privilégio meu: de vez em quando alguém lamenta a perda de uma oportunidade fictícia e, por incrível que pareça, nem todo o mundo percebe o círculo vicioso. O Millôr ilustrou essa situação com o homem do deserto e seu totó. Nesses detalhes reside a diferença entre o cidadão comum e o gênio.

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