O rapaz e a moça

by Claudia G. R. Valle | 17/12/2017 11:17

No tempo em que ainda era costume fazer vestidos em costureiras, ela arranjou uma, para ela e para a filha, em um bairro afastado, a três ônibus de distância. Profissional competente, habilidosa, perfeita nos acabamentos, e a diferença de preço compensava o sacrifício.

Tratava-se de uma senhora calma, viúva, que morava com a família do filho único. Gente boa e simples. Possuía um neto bonito, de vinte e poucos anos, alto, porte elegante, dono de um magnífico par de olhos azuis, redondos como bolas de gude.

Entre as provas das roupas, muitas e demoradas, percebeu que o rapaz, com frequência, dava um jeito de aparecer em casa. Não deu outra: estava interessado na filha. Gente boa, já disse, embora fora de questão aquele namoro, até porque a menina não demonstrava igual interesse. Mas eles gostavam de estar juntos, conversavam longamente, riam bastante, ele formal e respeitoso, militar como o pai.

E havia o ritual do lanche. A avó tinha sempre um pãozinho quente com manteiga, que mandava buscar na padaria ao lado na hora em que saía a fornada, e um café preto ralo, daqueles cujo aroma nunca se esquece, servido nas melhores xícaras da cristaleira.

Um dia, o rapaz resolveu visitar a menina. Havia pedido, fazia tempo, o endereço e informações sobre os três ônibus. Surgiu de surpresa, embora tivesse sinalizado que apareceria por lá quando estivesse de folga.

A história é antiga, usavam-se não só costureiras, como bater palmas no portão, e foi assim o rapaz que se anunciou. A menina o recebeu muito bem, com alegria até. Conversaram como de hábito, ele educado, respeitoso e formal como sempre. Houve também o ritual do lanche, tinha outro aroma, diferente, mas igualmente bom.

A visita durou uma ou duas horas, contudo o desconforto que o ambiente daquela casa causava ao rapaz era visível. Outros hábitos, outra educação, outra gente, tão boa quanto a dele, mas outra coisa. A menina percebeu o seu embaraço, e tentou em vão amenizar o clima pesado. Gostava dele, de seu comportamento correto, porém era-lhe impossível fingir ser quem não era. Para o rapaz a dificuldade era a mesma. Despediram-se carinhosamente um do outro, a tristeza estampada nos rostos de ambos.

A visita não se repetiu, e rarearam as ocasiões em que ele estava em casa quando a menina ia provar as roupas. A avó pareceu estranhar essa mudança de comportamento, mas nunca disse nada. Gostava da garota e adorava o neto, quiçá nutrisse alguma esperança de não vê-lo sofrer. Idosa, com experiência de vida, quem sabe a única confidente do neto e a única pessoa da família que compreendeu o dilema pelo qual ele passava.

Eis aí uma história universal que se repete, aqui ou alhures, em qualquer época. Talvez não tão carregada de cerimônia e formalismo, porque as regras sociais estão em constante mudança, mas com iguais sentimentos e consequências.

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