Crônicas

O silêncio dessas pedras em equilíbrio…

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Você já foi ao Lajedo do Pai Mateus, na cidade Cabaceiras, localizada no Cariri parahybano? Não? Então vá. Nós fomos. E, mesmo sendo plural, o local é de uma singular beleza. O silêncio mora entre as pedras do Lajedo. São muitas as pedras que ali dormem. Muitas encantadas. Até chegar ao Lajedo, são muitas pedras no caminho.  Nada de uma apenas. Uma pedra no caminho? Muitas. Um caminho que nada tem daquele do poeta de Itabira. O caminho que nos leva às pedras do Curandeiro Pai Mateus, mesmo poético, é mais real.

Acreditem. São as pedras do Lajedo que nos fazem suportar um caminho somente poeira. Um caminho de apenas uma vista. Mas nada de “inútil paisagem”. Não escutava Tom Jobim. Não escutávamos.  Nem pensávamos no que pensara Aloysio Oliveira nesse momento. Mandacaru macambira, umburana, xiquexique, facheiro e outras. Todas plantas típicas da região nos “observam” como vigilantes atentas do início ao fim dos vinte e dois quilômetros de poeira e… pedras.

São as pedras do Pai Mateus que levam milhares de curiosos, muitos mocinhos e outros nem tanto, à cidade cinematográfica de Cabaceiras, nossa Roliúde Nordestina, uma ótima invenção do jornalista e escritor Willis Leal. Agora, nesse momento, sem pedir silêncio aos meus dois leitores, um aviso: abrem-se as cortinas! O filme vai começar.

São muitos os que acreditam que Deus criou primeiro as pedras que dormem no Lajedo do Pai Mateus, para depois criar o mundo. Isso antes mesmo do “Fiat lux!”. O Sol. Esse “vida e morte nordestina” que guarda uma luz especialmente para elas!  Essas pedras que não rolam, mas cantam!

O equilíbrio!Ah, esse! São muitas as pedras equilibradas na ponta dos pés de plantinhas que se sentem muito bem em ser por elas esmagadas. Pausa. Essa não seria a palavra certa: esmagadas. As tinhas não se sentem assim. Sentimos. São cúmplices delas, das pedras.  Tanto no silêncio quanto no equilíbrio.

Passei horas. Passamos. Duas ou mais horas passamos com os olhos fotografando a paisagem. Tudo gravando na memória dos olhos. Desfrutando do silencio e equilíbrio das pedras. O canto. Esse também. Éramos todos filhos do Pai Mateus em equilíbrio com as suas pedras.

As pedras do Lajedo do Pai Mateus Tem “personalidades” próprias. Os cantos em que se encontram e o canto que poucos escutam são próprios. Cada pedra no seu canto e com o seu canto que não parece com nenhum outro. Um lugar não poderia ser outro. Ali não se olha para todas as pedras com o mesmo olhar. Tem-se um olhar para cada pedra e cada pedra com o seu modo único de ser olhado.

Assim fizemos. No fundo das retinas dos nossos olhos, a pedra que vimos juntos não é a mesma que ali se encontra registrada. Todos de chapéus.  Estávamos. Mas não os tiramos para elas. Não foi preciso.  As pedras sentem o respeito em nossa forma de olhar. Não rolaram em nossa imaginação. Em nenhuma dos presentes. Milhares de anos em equilíbrio não se desequilibram em olhares passageiros. E a idade delas? A idade da pedra? Nem o Glauber Rocha seria capaz de calcular. Um mistério.  Um doce mistério do Lajedo do Pai Mateus.

E o Sol no Lajedo? Ah, esse também contribui para que cada pedra receba um olhar diferente. Ilumina em partes! Divide olhares! Não há um Sol para cada pedra. Iluminação sim.  Essa é individual.  Uma luz é mais aberta ali; aquela pede um pouco mais de sombra; aquela outra deve ser vista na direção que aponta a luz que vem de cima… Segue a luz privilegiando todas sem que uma se ache mais iluminada que a outra.

E o som? Nenhum. Pedras não fazem barulho.   Cantam. Apenas. As pedras cantam em silêncio. Mas para que nós pobres mortais possamos ouvir o seu canto, alguém precisa tocar em seus – das pedras – corpos grávidos de melodias.  Todas belas.  Uns – os sons – são agudos; outros graves. Todos, porém, sintonizados com os ouvidos de quem estar aberto para escutar a sua música.

Não sei se voltarei ao Lajedo do Pai Mateus. Se voltaremos. Mas tanto pode acontecer, como também não ser preciso.  As pedras? Essas trouxemos conosco.  O sol, o som. Esses trouxemos também. Sobretudo o silêncio que nos deixou sem palavras. Palavras?! Pedras dessas não precisam. Não é o seu alimento.  Pedras do Lajedo do Pai Mateus se alimentam dos olhares de quem aprendeu a respeitar o seu silêncio.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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