Crônicas

O vampiro de João Pessoa

Tarcísio Pereira
Escrito por Tarcísio Pereira

Frequenta todos os lugares, à noite. Orla marítima, boates, shows de rua, shopping center e Parque Solon de Lucena.

Vai ao teatro, ao cinema, comparece às exposições, saraus e lançamentos de livros.

Bebe, mas não sei se muito ou pouco.. É sempre visto no último cantinho de um balcão, e toma discretamente um aperitivo ou dose de conhaque. Não raro, à saída, deixa sempre uma boa gorjeta para a linda garçonete dos seus encantos, e não vai embora sem beijar-lhe a mão.

A idade oscila dos setenta aos setenta e cinco, nunca perguntei. E, no mundo, não há uma única alma que o acompanhe.

– O senhor não é casado?

– Fui. Mas já faz mais de quarenta anos. E não tive filhos.

Durante muitos anos, segundo informa, foi apenas um grande namorador – coisa que agora já não acontece regularmente, quiçá pela idade já um tanto avançada ou, ainda, por alguma depressão de vida que lhe veio chegando nestes últimos anos.

– O que o senhor faz?

A resposta já vem acompanhada de um nebuloso diagnóstico:

– A aposentadoria, meu filho, é uma desgraça. A vida da gente nunca mais é a mesma.

– Renove as aventuras, já que agora tem mais tempo.

Insiste em responder com subterfúgios filosóficos. É a sua marca:

– É onde você se engana. Dispor de muito tempo é o que maltrata, e esmorece a gente. Bom é fazer as coisas quando não se tem tempo, porque vamos correndo contra o relógio. Depois, o relógio pára, a gente se acomoda e afunda o dia inteiro dentro de uma rede.

Acostumara-se, de fato, a trocar a noite pelo dia. E explicou a razão, falando esportivamente:

– Durante a noite, as mulheres ficam mais bonitas.

Com isso, confirmava a sua mania de olhar, profunda e ostensivamente, para as garotas que trafegavam. Outro dia, vendo a cabrocha passar com seus remelexos, não resistiu e suspirou isto:

– Com essa cadelinha na mão, apenas por hoje à noite, eu não faria questão de morrer amanhã.

Quando ela sumiu, me olhou por cima dos óculos e fez a consulta:

– Desculpe, mas você não concorda que aquilo é uma perdição?

Também respondi esportivamente:

– Perdição nada. Aquilo é um achado.

Abriu comigo o seu coração, no desabafo de uma intensa tortura que vinha consumindo os seus dias de ócio:

– Um dia você vai entender o que é olhar e não ser olhado. Quando eu tinha a sua idade, essas bonecas também me olhavam, e era muito bom ser correspondido. Hoje eu olho sozinho, e você não imagina as coisas que se passam nesta cabeça. Vou devorando todas e despindo as peças do seu corpo.

Falava da tortura de suas fantasias, como se eu fosse o analista dos seus dilemas. Intercalando os delírios, interrompia o assunto para comentar sobre a outra que passava, e repetia:

– Olha como a cabrita rebola! Precisava dessa saia tão justa? Eu sei que as mulheres conhecem a fraqueza dos homens, mas deviam ter compaixão era dos velhos.

Caramba, que aquilo me arrepiou! Foi quando me lembrei da literatura e disse para ele:

– O senhor está me lembrando um personagem de Dalton Trevisan.

– E quem é Dalton Trevisan?

– Um escritor do Paraná, que escreveu um belo conto chamado “O Vampiro de Curitiba”. É a história de um velho tarado, que quer atacar todas as garotas mas não tem coragem.

De repente, desceu-lhe ao semblante um ar sombrio. Abaixou a cabeça e ficou pensativo. Não fez nenhuma concessão às minhas tentativas de reanimá-lo, e foi embora deprimido. Quando encontrei-o, dias depois, pedi-lhe desculpa, mas agora era a criatura mais feliz do mundo:

– Desculpa que nada, amigo. Estou com uma gatinha de vinte anos desde o mês passado. Você não sabe o quanto ela mudou a minha vida.

Na mesma semana esteve no Theatro Santa Roza para assistir a comédia “Pastoril Profano”, e estava acompanhado da jovem que era verdadeiramente uma pérola. Depois, a sós, veio confidenciar:

– Antes que você estranhe como consegui, preciso confessar que estou pagando muito bem. Ninguém é burro para não perceber isso, mas estou pouco me lixando.

Tirei uma brincadeira, porém um alerta nada conveniente, já que ele próprio me dera a liberdade:

– Tenha cuidado, que ela vai comer todo o seu dinheiro.

Olhou-me com um protesto, mas não teve mágoa. E, consciente dos seus limites, e daqueles dilemas anteriores, respondeu de uma forma sábia:

– Ela come o meu dinheiro, mas eu como ela.

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Sobre o Autor

Tarcísio Pereira

Tarcísio Pereira

Jornalista e Publicitário, Escritor e Teatrólogo, atua nas áreas de comunicação e cultura.

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