Crônicas

O velho que andava remando e ela que da vida sabia muito….

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Isso era todo o dia. Não tinha um em que ele não chegasse com o seu jeito de sempre chegar. Remando. A minha mãe dizia que ele vinha assim. Remando. Pausa. Assim mesmo. Não andava o meu pai, dizia a minha mãe, remava.

Um dia, mesmo achando que ela estava querendo dizer outra coisa com esse seu “remando”, embora sem deixar de desconfiar que o meu pai poderia ter sido um dia marinheiro, prestei uma atenção maior do que aquela que todo o dia lhe prestava: meu pai remava. A minha mãe tinha razão.

Dona Chiquinha sabia tudo e mais um pouco dessa vida. No dia em que o meu irmão mais velho trocou de roupa e foi morar noutra cidade, fui o escolhido para lhe dar a noticia. Tinha que ter um jeito. Não podia chegar para ela e dizer simplesmente que “Nado morreu”. O “Nado” aqui, permitam-me ressaltar, nada tem a ver com o meu pai que “remava”. Esse era o carinhoso apelido de Leonardo Jorge de Almeida.

O meu pai “remava”. Descobri naquele dia em que lhe prestei mais atenção. O remava de que a minha mãe falava tinha realmente muito a ver com o mar. Marinheiros. Barcos. Tudo o que a minha imaginação conseguia associar ao verbo “remar”. Mas o remar que ela via não era diferente. O andar remando.  Era esse a que ela se referia.

O andar do meu pai era balançado. Verdade. Firme, porém sem perder o ritmo que as pernas pediam. Tendo as pernas arqueadas, “trochas”, como se dizia na época, ele andava no balanço de suas – das pernas – curavas. Essas o faziam parecer que remava. “Lá vem Heráclito remando!”. Ouvir inúmeras vezes a frase. Tanto que fui obrigado, como vocês viram, a dedicar maior atenção ao fato: por que o meu pai remava?  Andava remando?

Confesso que demorei um bom tempo para saber de onde a minha mãe havia tirado essa imagem associada ao “remar”. Agora, sabendo de tudo, fim do mistério. Não somente via o homem que chegava remando. Via mais. Via navios, marinheiros remos e mares. Tudo me lembrava do seu andar.

Dizem até que o meu pai nasceu “na praia”. Dizem. O mistério, o belo mistério, porém, ainda hoje continua sendo o mesmo mistério de ontem. Nenhum dos filhos sabe dizer com certeza onde fica “essa praia” em que o meu pai nasceu. Mas quando um dos filhos começa a desfiar lembranças do velho, a Praia da Penha, essa que nunca deixou de ser a praia mais queridas de todos da família, é apontada como sendo o berço do meu velho remador.

Mas sem esquecer o andar remador do meu pai, lembro que Dona Chiquinha, a minha mãe e companheira do meu doce Clarinetista por toda a vida, nem esperou que a notícia da mudança e troca de roupa do filho mais velho fosse-lhe passada. Sabia. Já sabia.  Foi só lhe perguntar se estava sabendo, naquela maneira preparatória para a “trágica” noticia final, a procurando o melhor eufemismo para aquele momento, ela veio de resposta na ponta da língua: já sabia!

Muita antes de receber deste filho mais novo a notícia de sua partida, contar-me-ia depois, já sabia.  E quem lhe deu a noticia primeiro do que eu? “Ele…”. Respondeu com a naturalidade de quem metia o dedo no disco do telefone para ligar o velho companheiro. Tudo muito natural. “Ele… Foi ele que me contou. Bateu na minha porta e, numa voz que em nada mudava daquela que eu estava acostumada a ouvir, disse que estava partindo…”.

Era assim Dona Chiquinha. Era assim o meu velho pai que andava remando.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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