Crônicas

Onde Estava a Rã Que Eu Não Vi?!

Ran, filme de Akira Kurosawa
Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

por Humberto de Almeida*

O ano se não me engano era o de 1985.  O mesmo ano do filme. Acabara de assistir a Run, uma adaptação da obra de Shakespeare feita pelo Akira para o cinema.  Achei, como se diz apor aqui, arretada!  E achando assim fiquei um bom tempo ali parado, sentado numa das velhas cadeiras do cinema Municipal, um dos mais modernos da época, imaginando o quanto era bom esse tal de Akira Kurosawa.

A história é comum em nossos tempos. Um chefe de família que decide dividir os seus bens com os seus três filhos e, como ainda hoje acontece, acaba não dando certo. A inveja. A ambição. A vingança. Tudo contribui para que a divisão não de certo. Shakespeare sempre foi assim. Trágico.

Lembro que cheguei na empresa em que ainda hoje trabalho saboreando a história. Fazia um bom tempo que não tinha visto/lido outra igual. Conhecia o Rei Lear.  E, como desde aqueles tempos acontecia, esperava que uma grande obra levada à tela acabasse – desculpem a palavra, mas é a melhor no momento – uma merda como tantas outras.

Na empresa na qual ainda hoje trabalho, como falei, são poucos os que gostam de cinema como eu. “E aí, 1 berto, algum filme bom na praça?” Na praça ou no cinema, obtemperei. Tudo bem. O colega sabia que esse repente nordestino é uma das minhas características. Tinha. Estava passando no Municipal – o poeta Francci Lunguinho conhece muito bem -, o mais novo cinema da época, Inaugurado no ano de 1964, um filme excelente. E ninguém poderia perder.

Na época o chamado” cinema de arte”, como estava classificado Run, o filme do japonês Akira Kurosawa, ficava em cartaz apenas um dia. E passaria, assim como os outros, numa velocidade estonteante. Assistiu ou não assistiu. Era rápido como coceira de cachorro.

Pois bem. Não falei sobre o enredo para o colega. Estragaria o filme. Mas ele ainda me perguntou se era um filme de aventura. Fique em dúvida. Aventura? Pensei um pouco, e respondi “mais ou menos”. Não estranhem. A medida já existia. Era por aí. Ele iria gostar. Acreditava.

Lembro que não falei em Shakespeare. Não falei que o Akira Kurosawa era fã declarado do Shakespeare.  E que o japonês levou para a tela “dois Shakespeare” – O Trono Manchado de Sangue, baseado em MacBeth, e Run, esse que estava em cartaz, no Rei Lear.

Bem, diria para os colegas, se 1 berto disse que era um bom filme, um sujeito que passa – passava – mais tempo dentro de uma sala de cinema do que em casa, deve ser bom mesmo. E foi assistir, nesse mesmo dia, o Run do Akira.

Decepção! Grande! A maior das decepções! Diria escandindo as palavras no outro dia. O filme?  Péssimo!  Pior é que fez tudo certinho: não tirou os olhos da tela, acompanhou toda a história. Tudo como pediu o escriba. Mas, no final, a decepção: um filme sobre rã em que não viu uma só rã durante toda a história!

Mais tarde, passado o inesperado da surpresa, confessou que esperava um ataque desses batráquios. Mas, nada disso. Não viu uma rã sequer! Calei. Tinha errado em caprichar na pronuncia do filme. Reconheci. Nunca mais, prometi.  Depois dessa nunca mais usarei o meu inglês ou francês ou espanhol na pronúncia de um filme. Tony Curtis, Jerry Lewis e Sean Connery e outros valeria o que estava escrito. Run? Um filme sobre batráquios!

É. Deveria ser…

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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