Crônicas

Ortotanásia: uma morte digna ou com dignidade?

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Somente agora estou saindo desse espetáculo sem graça realizado pelos Tiriricas. Circo Câmara Federal. Fiquei de fora. Preferi. Escutei as gargalhadas. Apenas. O meu circo e outro. Esse ainda não descoberto pelo Pedro Álvares Cabral. Assim voltei para renascer em minha ilha cercada de livros e discos e filmes por todos os lados: meu escritório. O meu lazer.

Leio revistas e jornais. Mania. Velha mania. Mesmo vivendo o presente. Vivendo no presente gosto de lembrar o passado. Não tenho vergonha dele. O meu. Leio Jornais, revistas e livros. Assisto a filmes que mostram o passado presente nos meus olhos. Pausa. Aproveitei esse Dia do Trabalho para trabalhar mais que nos outros dias. Esvazio a cabeça. Limpo os olhos com o papel onde leio velhas manchetes.

Num desses jornais, um não muito velho, velhinho, apenas, deparo-me com o arcebispo da capital parahybana dizendo-se favorável a ortotanásia. Otorto o quê? Tanásia. Ortotanásia. Uma palavra mais feia que o seu significado. Ortotanásia. Morte correta. Thanatos. Morte. Prolongar a vida artificialmente? Não. Deixar-se morrer. O nosso arcebispo contrariava a ordem natural das coisas. Ele tem o dom de fazer com que muitos paraibanos não gostem dele. Não por isso. Se eu gosto? Nem desgosto. Sou indiferente. Assim como o dono do Rick’s Café indiferente era com o “sacana genial”. O Ugarte interpretado pelo Peter Lorre.

Ufa! Esse foi primeiro Primeiro de Maio que não descansei. Trabalhei. E foi assim que louvando o trabalho meu de cada dia (re)li que um religioso – contrariando a “Lei Divina”- por aqui é favorável ao final da vida sem que o vivente tenha essa encerrada naturalmente. Estranhei. Sei. Falar em “ortotanásia”, assim como acontece com um tango argentino, um blues me pega bem melhor. Ora, logo agora que os nossos leitores acabaram de entender que não ter onde cair morto significa é sofrer por não poder assim se despedir da vida. Não ter onde cair morto. Pausa. Eu tenho – caio dentro de mim.

Ainda confesso que senti um risinho de ironia cortando o meu rosto. Um corte sem dor. Estava em um momento reflexivo que beirava as margens do rio onde navegam as minhas crises existenciais. Essas que raramente tenho. Os meus dedos não se contendo, correram céleres para as teclas do computador. Percebi então que a ortotanásia apareceu sublinhada de vermelho. Adicionar ao dicionário? Não é preciso. Nunca foi. Nunca será.

Imaginei então a maioria dos nossos leitores de jornais coçando as suas – deles – cabeças e correndo para o dicionário. Tudo bem. A matéria entregava essa tal ortotanásia. Nada de anormal. Porém, para muitos, Ortotanásia era – continua sendo – mais que uma palavra. Um palavrão. Isso! Ortotanásia é um palavrão!

Mas, afinal, o que seria essa “tal criatura”? Uma coisa ruim? Deve ser. Uns pensam assim. Ortotanásia… Pensava. Enquanto isso o computador seguia vermelhando a palavra. Insistia: quero ou não a quero adicioná-la ao dicionário do meu do computador? Não era preciso. Não foi. Não é. Sei o significado de morrer pelas mãos de outro, quando o veneno ingerido é insuficiente. Sei. Mesmo que nunca assim tenha morrido.

Achei bacana. Vocês sabem. Muitos. Eu gosto um bocado da palavra. Bacana. Tanto quanto gosto de um bacanal bem acompanhado. Ah, também gostei da frase, A sua. Fez um bom efeito. Eis a justificativa do arcebispo: “Quando chega o momento de morrer não há nada que possamos fazer – a não ser morrer com dignidade”.

Mas o que seria para esse homem candidato a santo “morrer com dignidade”? Um pouco dele? Pois não: acha que céu é logo ali e somente ele e os seus – dele – amigos sabem o caminho. Morrer com dignidade, disse ele. E nesse “quando chega o momento de morrer” estaria ele creditando a Deus ou ao “destino” a hora dessa morte morrida ou matada?

Reflexão. Reflito. Apenas.

O que seria morrer com dignidade num país que paga ao trabalhador um salário mínimo insuficiente até mesmo para alimentar aquela cadelinha bonitinha que desfilava – por que nunca mais ela deu o ar de sua latida graça? – todas as manhãs no programa da Ana Maria Braga? Tão bonitinha!

A pergunta que em mim não quis calar: sujeitos com péssimos predicados como o Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Delcídio Amaral, Jair Bolsonaro, Ronaldo Caiado e outros que aqui dizer os seus nomes não será preciso, poderão ser lembrados pelas suas – lá deles – famílias e amigos como sujeitos que “morreram com dignidade”? O que responderiam os meus dois leitores? Sei não. Sei não. Sei não mesmo! Mas, se pudesse, dessas espécies tirar-lhes-ia os tubos naquele momento fatal. Mesmo ainda vivas. Não hesitaria.

A ortotanásia. Mesmo achando-a tão feia quanto a cara da “indesejada das gentes”, essa que muitos temem olhar cara a cara, seria bem-vinda em se tratando deste “malabarista de palavras”. Viver artificialmente não me satisfaz. Mesmo sabendo que muito ainda teria que viver. Terei. Também não adiantaria chamar a policia nem o ladrão. Inútil. Nesse justo momento ele, o ladrão, estaria provando o seu – dele – terno da posse.

Fiquei por aqui assim refletindo. Fico. E sem precisar de espelho.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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