Crônicas

Os desafios de uma professora cega e o seu cão-guia em busca da liberdade

A professora universitária Olga Solange Herval Souza e o seu cão-guia Darwin. Foto: Instituto Federal Catarinense (IFC)
Francci Lunguinho
Escrito por Francci Lunguinho

Uma mulher, cega, passeia com todas as dificuldades que a deficiência lhe atinge, porém, como qualquer pessoa rejeitada por fazer parte de uma minoria, tenta, na medida do possível, sobreviver aos insultos que o destino a envolveu.

A mulher, inconformada, quer provocar mudanças e decide correr atrás de outras muletas que vão além daquelas hastes metálicas que nos habituamos a ver.

A mulher, combatente, quer mais: resolve caminhar sem a ajuda das pessoas. Ela busca um companheiro, um herói, um parceiro que a entenda e que possa ficar de prontidão para todos os momentos. Seu desejo é vivenciar e dividir as alegrias e tristezas com um confidente. Ela precisa de alguém que reconheça os seus sentimentos mais íntimos e que saiba compreender as suas indagações, por mais incertas que pareçam ser.

Essa mulher não quer ser sobrevivente: por instinto, ela escolhe viver.

A mulher, heroica, luta contra o preconceito de ser cega. Entretanto, não se conforma de não ir aos mesmos lugares que todo mundo gosta de ir: visitar os mesmos parques, restaurantes, shoppings, livrarias e praias bem frequentadas. A mulher, escanteada pela sociedade, no fundo sabe que a praia é um espaço disputado demais para ser parte da sua rotina limitada.

Lá não há avisos de bem-vindos para pessoas como ela.

Um dia, a mulher decide lutar com todas as suas forças e consegue dar um jeito de vencer alguns obstáculos até então intransponíveis: surge assim o primeiro cão-guia na vida da professora universitária Olga Solange Herval Souza. Misty era o nome do labrador, treinado especialmente para acompanhar a rotina de Olga, que, a partir daquele momento, passou a se sentir forte. O cão Misty viveu o resto da sua vida ao lado da professora cega, porém, aos 12 anos um câncer o levou, simplesmente porque o tempo de um cão na terra é curto demais para a cronografia dos humanos.

Ela, a mulher que aprendeu a ser livre, não desistiu dos seus sonhos, e, com a ajuda de uns caras legais do Instituto Federal Catarinense (IFC), da cidade de Camboriú, foi em busca de outro cão – não para substituir o Misty, mas para ser um ato de continuidade de vida. Dessa parceria, veio o Darwin, um cão-guia da raça Flat Coated Retriever. E, sem querer nada em troca, tornou a vida de Olga novamente viável.

Prontos, eles agora têm um ao outro e já podem frequentar novamente os lugares comuns. Nada deveria impedi-los de realizar essas pequenas alegrias para qualquer um de nós.

Olga, a mulher que tem doutorado em educação, precisa aprender a entender o rancor de pessoas “normais”. Ora, onde já se viu uma cega ser feliz sem a permissão da sociedade?

Na praia, o lugar mais democrático e referenciado pelos homens, Olga descobre a podridão da pequinês humana. Ela e seu cão Darwin são arbitrariamente taxados de intrusos por duas senhoras da alta sociedade brasileira.

Nada adianta explicar o que aquela dupla representa. Nem o amor recíproco entre os dois é capaz de comover as senhoras e um policial mal preparado. Não, a culpa não é do policial e muito menos das duas senhoras burguesas. A culpa é do olhar da sociedade para com o próximo. A forma como isso é decidido e o que pode ser bom ou não para o resto do mundo.

Que a história deles dois nos sirvam de lição.

Olga deveria ser respeitada, Darwin deveria ser amado e a sociedade ser menos hipócrita.

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Sobre o Autor

Francci Lunguinho

Francci Lunguinho

Jornalista, radialista e Editor do portal Crônicas Cariocas.
Amante do jiu-jitsu, corridas de rua e cães. Também é editor da web rádio www.radiomatilha.com.br

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