Crônicas

Os Efeitos da Roda Gigante

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

“[…] Roda mundo, roda gigante/ roda moinho roda pião/ o tempo rodou num instante/ nas voltas do meu coração…” (Chico Buarque: Roda Viva)

 

A vida de um jovem empreendedor brasileiro, nos dias de hoje, é uma roda gigante; quando se menos espera, você galga várias alturas e está no topo, admirando uma paisagem nunca vista. A sensação é um misto de contemplação, felicidade e adrenalina, além daquele frio na barriga esperando pelo girar da roda. Então a roda trava, no percurso que um relógio de ponteiros imaginário marcaria 2h. Seu carrinho dá um solavanco e balança, para frente e para trás. Os de estômago fraco empalidecem e tem a necessidade de apertar um botão ejetar, imaginam ter que passar por uma descida, vislumbrar a saída e girar inúmeras vezes até finalmente sair, pernas bambas e pulso fraco. Os mais corajosos – ou loucos, depende do ponto de vista -, sentem um tremer nas mãos, mas são tolos demais para deixar transparecer o nervosismo. Então se acostumam, gritam para quem quiser ouvir que estão felizes, querem de novo passar pela fila gigantesca e entrar em um novo carrinho. Da segunda vez, o corpo já se adequou à novidade e sente apenas o vento gostoso no rosto. Não existe medo, pois se conhece o que está por vir. Em tempos de crise, Estado que atesta calamidade pública, um grande evento que suga as energias e as riquezas de nosso tesouro nacional, nada mais natural do que sentir-se por primeira vez em uma roda gigante de raio de grandes proporções; chegar ao topo é inevitável, contemplar a beleza da cidade maravilhosa em seu auge de obras concluídas – ou mascaradas – é bonito de se ver. A prefeitura do Rio tem alma de empreendedora; curte a adrenalina. Já o Estado, este tem estômago delicado. A população prefere fechar os olhos ao descer a roda, engolir em seco e rezar para um seu deus particular, rogando para que tudo dê certo. Nós, empreendedores acabamos por buscar novos horizontes. Eis então que você esbarra, por acaso, em uma viagem agendada em cima da hora e se depara, sem querer, com o número 410 da Rua 13 de Maio no Bixiga. Tudo é cinza, ou quase; até os dois homens sentados em sua soleira vestem-se em tons desbotados. De uma das janelas, aberta, entrevem-se estantes de aço com caixas de papelão. A cena não sai da minha cabeça enquanto caminho para um restaurante italiano, descendo a rua. Tudo é cinza; menos a tímida e cansada cerejeira, cujas últimas flores rosas ainda resistem à chegada do inverno. Continuo pela via acompanhada, dois pares de pernas caminhando em meio a nova São Paulo que se me apresenta; todo artista, cedo ou tarde, um dia cai de amores por essa cidade. Chegou a minha hora: me apaixonei por São Paulo! Enquanto a formosura do Rio de Janeiro é o que faz meus suspiros serem cotidianos, São Paulo é criatividade pura. A beleza não está em algo definido; está na poesia das ruas, como no número 410 da Rua 13 de maio.

A poesia também está no caos carioca. Quando se entra em uma Roda Gigante, não se pode imaginar como sairemos transformados…

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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