Crônicas

Os novos pobres

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Do jeito que as coisas vão por aqui, com a classe média praticamente aniquilada, e os responsáveis querendo aumentar os impostos existentes e criar outros, é melhor a gente ir desde já se preparando para não pagar mico. Isto porque muitos vão virar nouveaux pauvres, o que é um convite à discriminação por parte dos pobres tradicionais.

O candidato a nouveau pauvre precisa aprender a respeitar o protocolo de sua nova posição social. Para começar, o uso da própria expressão nouveau pauvre é uma gafe sem tamanho porque citações em francês são completamente inadequadas nesse contexto social. Se de todo você não puder se abster de palavras em língua estrangeira é melhor usar citações em inglês como fuck you ou McDonald´s, esta última com grande poder de comunicação.

O seu português também deve ser aperfeiçoado com um acréscimo de vocabulário que incluirá palavras comomindingo, tauba, sosfisticado, menas e largatixa. Qualquer passo em falso nesse terreno pode ser interpretado como arrivismo.

Se quiser ser mais convincente, engorde. Pobre não se preocupa com essa bobagem de peso. Farinha, feijão carregado de gordura e cerveja ainda estarão ao seu alcance. Quem faz o tipo saudável, tem outra opção: ficar muito magro. Talvez até seja mais eficiente porque uma pessoa esquelética costuma despertar solidariedade. O importante é mostrar que você não dá a mínima para a estética da burguesia.

A classe média provavelmente não terá como manter as suas casas atuais nem como vendê-las já que os potenciais compradores também estarão na penúria. Felizmente no Brasil há uma enorme carência de moradias, então uma solução viável será compartilhar o espaço com alguns sem-teto. Em troca, eles poderão ministrar cursos de etiqueta para nouveaux pauvres e/ou complementar a renda familiar prestando serviços variados.

Se em lugar de um sem-teto você conseguir um sem-terra poderá cultivar uma pequena horta num quintal ou numa varanda de apartamento. Quem não dispuser de quintal nem de varanda pode usar uma banheira, um tanque, ou adaptar outros recipientes, isso vai depender da criatividade de cada indivíduo. O produto da horta servirá para consumo próprio ou como moeda de troca com os vizinhos. Tudo sem envolver dinheiro, já que ninguém disporá de nenhum.

Aliás, procure conhecer melhor os seus vizinhos porque você dependerá deles para os eventuais escambos e até para o convívio social de lazer (esqueça cinema, restaurante e outros luxos), já que o transporte é caro e carro, se você ainda tiver um, é melhor deixar parado na garagem.

O uso do carro fora de ocasiões muito especiais só se justifica se você se inscrever para trabalhar no Über nas horas vagas. Um segundo emprego é sempre uma boa ideia, já que ninguém estará seguro no primeiro emprego. Não estranhe se encontrar o seu patrão também dirigindo para o Über, mas se isso acontecer é melhor fingir que não viu.

Trabalhando em dobro, talvez você consiga driblar um pouco a crise, mas o problema é que qualquer atividade produtiva necessita de demanda para sobreviver e, você sabe, a maioria dos consumidores da classe média está falida. Não vai escapar nem quem economizou até na pasta de dentes.

Enfim, seja o que Deus quiser.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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