Crônicas

Os “Sete Enforcados” de Patos

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

A história que agora eu passo a contar da forma mais simples e direta possível aconteceu por aqui mesmo, no ano das graças de 2016. Se fosse uma novela, um conto, por aí, seriam três personagens a procura de um autor. Em nosso caso, porém, o autor é Leonid Andreiev, nascido no distante ano de 1871, em Orel, na velha Rússia, e se mudado desta para um melhor, assim dizem uns sonhadores, no também distante ano de 1919, com apenas 48 anos, o escritor e dramaturgo e historiador e José Mota Victor, e o livro “Os Sete Enforcados”.

Tudo começou no dia 18 de março do ano das graças de Nosso Senhor, quando Jose Mota Victor, filho da cidade de Patos, município situado a pouco mais de 300 km da capital da Parahyba, recebeu um imeio de Milton Santos, emérito professor da PUC paulista. O professor que ora trabalha na reunião e digitalização da obra do escritor russo citado, pedia nesse imeio a autorização patoense para digitalizar o livro “Os Sete Enforcados” de Leonid Andreiev, constante em sua vasta e valiosa biblioteca.

Simples, não? Muito simples. Mas, podem acreditar, não se veria assim tão simples se a obra solicitada pelo professor, para surpresa minha e de muitos pesquisadores ou não, se eu acrescentasse ser esse exemplar o único existente nas terras brasilis! Pois é. Para os poucos que ainda não sabem – ou seriam muitos? – “Os Sete Enforcados”, um clássico da literatura russa, conta a história de cinco homens e duas mulheres que são condenados por um crime que não chegou a acontecer. Um clima, pelo que se pode imaginar, bem propício para o “kafkiano Kafka” situar mais uma de suas sombrias histórias.

Leonid Andreiev, mais que um contista, excelente contista, também escreveu novelas, romances, comédias e dramas. Mas, como não estamos aqui para contar sobre a vida desse escritor que fora em vida saudado com entusiasmo até pelo Tolstoi, pois o Google está aí para tirar qualquer dúvida a respeito do mesmo e de sua obra, volto ao “Os Sete Enforcados”. Vale a pena repetir: esse é o único exemplar existente na terra brasilis! Raridade que, por aqui, existe apenas na biblioteca de José Mota Victor.

O imeio chegou para provar. Nele o professor Milton Santos, noticiando ser José Mota o detentor desse exemplar raro, resalta que o propósito de sua solicitação é a preservação e divulgação da obra do escritor russo. Leiamos um pouco do imeio (sic): “Uma das publicações identificadas (de Leonid Andreiev) como o Sr. conhece, trata-se de “Os Sete Enforcados”, de 1931, editado por Georges Selzoff. Eu tentei por todos os meios localizar um exemplar desta obra para aquisição, mas o único exemplar que eu tenho conhecimento é o da sua biblioteca.”!

Pronto! Agora, exposta essa raridade única no verde-amarelo, sabendo o possuidor da raridade que possui, ratificado o fato pelo mesmo sabido, eu perguntaria sem medo de receber uma resposta diferente de quem perguntado eu fosse, se você sendo o dono de uma raridade dessas em sua biblioteca, mesmo sabendo da importância da pesquisa e seriedade do professor Milton Santos, deixaria que esse exemplar único no verde-amarelo saísse de sua biblioteca, fosse “copiado” e disponibilizado ao público?

Pergunto ainda: a partir do instante em que essa obra viesse a público, copiada e distribuída, ela não deixaria de ser a raridade que todos sabem e reconhecem esse o seu valor? Eu, particularmente, confesso saber o final da história. Como seria? Se este escriba tivesse que escrevê-la, todo o respeito ao professor e as minhas desculpas ao grande público – informamos que pesquisa da Fecomércio-RJ mostrou que 70% dos brasileiros não leram um livro sequer em 2014 – por não lhe permitir o seu “sagrado direito” de beber na fonte do escritor russo, acabaria no “Fico” que um dia, segundo os que ficaram por aqui, dissera um político parahybano: a obra ficaria na minha biblioteca. Fim de papo. E das mal-traçadas desta quinta.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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