Crônicas

Papai Noel

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

(atenção: contem spoiler logo no início)

Como foi que você soube que não existia Papai Noel?

Eu comecei a desconfiar quando descobri que os presentes que “Papai Noel” trazia para mim eram providenciados pelos meus pais. Remexendo num armário, como fazem habitualmente as crianças, encontrei uma caixa. Com medo, porque eu não devia estar fazendo aquilo, levantei um pouquinho a tampa. Entrevi a boneca, e constatei imediatamente: era linda.

Perguntei à minha mãe a quem pertencia aquela caixa, mas ela desconversou, dizendo qualquer coisa áspera sobre eu não me meter onde não fora chamada, o que me levou a desistir imediatamente de fazer mais perguntas. Ainda assim, logo que surgiu uma oportunidade, corri para o tal armário. É claro que tudo, caixa e boneca, havia desaparecido.

Em casa era costume cada criança deixar um pé de sapato perto da árvore de Natal, para que Papai Noel o enchesse de presentes. Se não coubessem dentro do sapato, o que acontecia sempre, o sapato encimava o que pertencia a cada um. E lá estava o meu sapatinho sobre a caixa desaparecida! A boneca tinha duas tranças de cabelo castanho e olhos de vidro azul, com pálpebras que abriam e fechavam. Não era muito grande, mas comparada às duas que eu possuía, uma de pano, feita em casa, e um bebê de plástico rígido, parecia uma princesa.

Mesmo percebendo a tramoia, ainda restou alguma dúvida sobre se os outros presentes teriam vindo ou não diretamente de Papai Noel. Meus pais, sem querer, achando que eu já tinha descoberto a verdade, confirmaram minhas suspeitas. Disseram-me que, nem a boneca, nem outras coisas, das quais não me recordo, eram presentes deles, mas de amigos da família, e que eu já estava em idade de agradecer-lhes quando os encontrasse.

Não fiquei traumatizada por isso, nem sei de ninguém que tenha ficado. A fantasia faz parte do universo infantil. Conheço até quem sentiu raiva do adulto que lhe contou que Papai Noel não existia.

Há um momento em que a pergunta “Você acredita em Papai Noel?” aparece naturalmente entre as crianças. O debate se espalha, e quem se convence primeiro trata de convencer os outros.

Quando eu já era adolescente criamos o hábito de escolher alguém da família, toscamente fantasiado de Papai Noel, para distribuir os presentes. O costume acabou porque as crianças cresceram, e também porque ninguém mais queria fazer o sacrifício de vestir aquela roupa quentíssima em pleno dezembro. Mas nos fez dar boas gargalhadas, com o escolhido perguntando também aos adultos se tinham se comportado bem e achavam que mereciam ganhar alguma coisa, e distribuindo os embrulhos em meio a muita algazarra.

Num desses Natais assisti a uma conversa entre dois irmãos, com pouca diferença de idade entre si. O mais velho, com ar de superioridade, disse ao outro, num sussurro que todo mundo ouviu: “O Papai Noel é o tio Fulano”. O caçula recusou-se a acreditar: afinal, as evidências da existência do bom velhinho eram claras, e ele estava ali pessoalmente para quem quisesse (ou soubesse) ver.

Em raciocínio parecido, outro menino, em outro Natal, perguntado sobre o que tinha achado do “Papai Noel” (que naquele ano era o seu próprio pai), declarou solenemente: “Antes eu achava que Papai Noel não existia, mas agora sei que ele existe, até conversou comigo!”.

Numa dessas noites de Natal, um sobrinho, ainda muito pequeno, esperava ansioso a chegada do Papai Noel. Não conseguiu manter-se acordado e, no dia seguinte, lhe dissemos que Papai Noel tinha estacionado as renas na varanda, deixado os presentes, e saído rapidamente porque estava muito atarefado. O garoto achou um absurdo não ter sido acordado para ver as renas! No ano seguinte, ficou na varanda aguardando o trenó, mas, como previsto, dormiu antes da chegada das renas. Hoje é homem feito, e não consta que tenha traumas por isso, pelo contrário, acha a maior graça no episódio.

Muita gente tem histórias para contar sobre como descobriu que não existia Papai Noel. Mas, confesso: agora estou quase acreditando de novo no simpático velhinho, porque ele é tudo de bom.

Feliz Natal!

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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