Crônicas

Papo mole Beira-mar

Catarina Cunha
Escrito por Catarina Cunha

Jorginho é taxista legítimo: folgado, cabeleira branca e barriga farta, boa praça, poliglota, puxa conversa até com surdo-mudo e conta histórias clássicas do cotidiano do Rio. Lábia afiada leva, na maciota do banco traseiro, a fauna e a flora carioca.

Papo Mole Beira-MarTrabalha de segunda a domingo e de sol a sol. Ano novo entra em recesso. Encosta o amarelo na garagem do apartamento da mãe na Praça do Lido para passar a virada com a família; bem longe da lei-seca. No festão de 2009/2010 Jorginho manteve a carteira de motorista no bolso da bermuda só para não se sentir pelado e, quase na hora dos fogos, decorou os chinelos com areia e sentou de frente ao mar para levar aquele papo cabeça com Iemanjá. Negociou as posturas para o ano que prometia a saúde dos seus e as boas corridas, reclamou – de leve – das intempéries pessoais, do síndico, do trânsito, dos preços, todos loucos do ano moribundo. Empolgado, cobrou mais ação da Rainha do Mar diante de tanta bagaceira ocorrendo no mundo. A Senhora pode fazer melhor, incentivou. Súdito assumido, não querendo ser desrespeitoso, mas firme, comentou com a Soberana que 2009 foi muito quente, o mar esteve indócil boa parte do ano e na outra fedendo a merda. Alguns peixes sumiram das redes, pinguins argentinos bateram nestes costados e plantas, aparentemente extraterrestres, invadiram as praias. Majestade, a Senhora não pode deixar essas coisas por isso mesmo, se não vira bagunça. Sei, sei – contemporizou – têm certas coisas que cansam, principalmente depois de certa idade e com tanto trabalho e concorrência terrena. Mas os seus filhos estão aqui na praia pedindo perdão, graça e força. Não é hora de amarelar. E por falar nisso, ando preocupado com Vossa Excelência. Assisti a um filme sinistro em que daqui a dois anos a Digníssima Majestade pira geral, chuta o balde e faz a maior bagunça com o planeta. Não deixa pedra sobre pedra, derruba até a concorrência do alto do Corcovado. Querida, antes que cheguemos a esse ponto vamos relaxar, pensar positivo, sabe? Nós estamos nos esforçando, por favor, não desista destes filhos inconsequentes. Ofereça-nos a oportunidade de sair da adolescência e – quem sabe? – consertar nossos erros.

Veio uma onda hostil pegando Jorginho em cheio. O taxista levantou todo molhado, mas não perdeu a compostura e soltou mais uma: Perdão, Mãe, eu estava só pensando alto. É uma mania minha, força do ofício. Mas se quiser pensar um pouco no assunto, este humilde servo se curva.

Fogos estouram, garrafas viram, gritos e urras. Antes do fim da queima de fogos, raios dividem os céus com a pólvora. Uma tempestade torrencial cai sobre os súditos esvaziando o tapete branco de Copacabana. Os que insistem em ficar, seja pelo poder da fé ou do álcool, são finalmente afugentados por ondas que apagam velas e enterram Cidras. Jorginho vê todo aquele alvoroço e pensa com seus chinelos: Eu e minha boca grande…

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Catarina Cunha

Catarina Cunha

Foi finalista do Concurso "Contos do Rio", do jornal O Globo, em 2006. Trabalhou como bancária e advogada. Ganhou o Primeiro Lugar no "1º Concurso Crônicas Cariocas", promovido pelo portal Crônicas Cariocas e pela Universidade Castelo Branco, em 2008.

Obrigado por visitar o nosso site.

Facebook
%d blogueiros gostam disto: