Crônicas

Pelos caminhos da memória tropeço em lembranças que não mereciam ser lembradas…

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Quando eu nasci, um anjo desses que andavam por aí ensaiando novos e rasantes voos no meu bairro Jaguaribe, sorriso largo de um canto a outro das asas brancas, disse para o escriba: – “Vai, 1berto, seguir tua vida Severina, morrer de saudades em cada esquina! No final, se nada der certo, volta ao começo, estarei por perto…”.

Falou assim mesmo, todo profético, sabendo que o meu bairro Jaguaribe não demoraria muito em virar apenas uma fotografia desbotada na parede da minha memória. E assim, vinte ou trinta e mais cinco anos depois, passo no meu bairro e descubro para a minha tristeza que pouco reconheço nesse bairro o que um dia fora meu.

A Escola Técnica, aquela mesma dos velhos e saudosos anos de Escola Industrial, meu sonho de “consumo estudantil”; o Campo da Vila, antigo ABC, onde ensaiei os primeiros chutes e fiz os primeiros gols na vida, que embora longe da marca dos mil que se tornou famosa por causa do craque Pelé – o dono dele é um idiota – valendo por mais de mil; o Santo Antonio, cinema onde pela primeira vez, rosto quase encostando na tela branca que parecia cobrir o resto do mundo, acreditei que Tarzan existia de verdade e morava na minha Mata do Buraquinho. Ah, saudades!

Hoje, passeando pelos caminhos da memória, tropeço em lembranças que lembrar não mereciam. Mas como esquecer o time ABC de Venelipe, pai de Abel e Adão e Abraão e Moisés? Um time que parecia ter saído da “Arca de Noé”? E as antológicas peladas dos rivais no campo e amigos fraternos fora dele, entre as equipes do Cu de Calango e Senado, essas que a idade pouca não me permitia delas participar?

A verdade meus dois leitores meus (gostei!) é que se um Poeta verdadeiro na Vila Isabel nasceu e cantou muito bem essa vila como se quintal ela fosse sua, por aqui, em Jaguaribe, meu bairro, sem cantar, mas escrevendo, canto a Vila dos Motoristas porque o meu quintal essa sempre foi! Essa vila que “motoristas” engoliram o seu nome de batismo (Prefeito Damásio Franca) e ninguém nunca reclamou. Ah, sem modéstia à parte, meus senhores, também sou de uma Vila!

Hoje, anos idos que não voltam mais nem os queriam voltando, passo quase todos os dias em passos lentos- mais pelo peso da saudade! – pela casa que era minha. Está tudo lá! Se o passante não tiver pressa, como acontece com este passante cheio de saudades, se deparará (nada de mesóclise, essa coisa feia) com saudades saindo pelas janelas da alma. Tudo em pé! A casa cheia de saudade e a saudade dentro de casa! Só por fora com os olhos que por fora veem, descobre-se que está um pouco mudada; por dentro, vendo com os olhos da alma nada mudou. A mesma Rua 12 de Outubro; O mesmo número 950, a mesma casa…

Foi ali mesmo, naquela casa, como à moda antiga, Macunaíma nada preguiçoso, consumidor de arte e bom caráter – desculpem a falta de modéstia – que saí da barriga de Dona Chiquinha, esposa e fiel companheira do Compadre Heráclito, para descer e subir ladeiras pela vida. Foi ali, ainda nos primeiros passos, entre uma frente somente jardim e um quintal pomar, semente plantada pelo Compadre Heráclito e Dona Chiquinha, que no compasso da clarineta do primeiro encontrei a minha régua.

Hoje abandonada e pouco a pouco virando fogueira de São João, uma tradição que também se despede por aqui, lembro-me que a Mata do Buraquinho era o lugar onde o meu saudoso amigo Livardo Alves, o criador da “Marcha da Cueca”, sem matar o mais pífio dos nus por uma cueca lhe fora roubada, sonhava erguer a sua casa. E caminhávamos pelo meio da Mata do Buraquinho sem medo de Minotauro e sem precisar de uma Ariadne que nos emprestasse um fio de esperança para evitar que nos perdêssemos pelo caminho! Se não era a minha floresta encantada, só pelo desconhecido, essa Mata me encantava todos os dias!

E como esquecer as apetitosas jacas ainda “de vez” que Tota o meu irmão-herói que foi morar noutra cidade tirava e enterrava em local somente por ele conhecido?! Ora, e quem mesmo sabendo o local mas sabendo ainda quem Tota era mexeria naquele tesouro? Ufa! Um dia, mesmo que pouco interesse aos meus dois leitores, dedicarei todo um espaço plural | (humbertodealmeida.com.br) a Tota o meu herói! Afinal, Tota é Jaguaribe e Jaguaribe é Tota!

E, por fim, abrindo as comportas do peito e deixando esse rio de saudade inundar a Minh,alma, não me condenem esses dois leitores meus por inocentar o meu rio Jaguaribe do crime que cometeu, matando os 03 filhos de Penha afogados e merecendo, segundo o amigo e poeta Águia Mendes, ser condenado a 100 anos de prisão! Se o Tejo do Fernando Pessoa deságua no mar, o meu rio Jaguaribe, esse onde as onças nele matavam a sede deságua dentro do meu peito! Por isso todas às vezes que lembro o meu rio, sou todo água! Salve o meu Jaguaribe, belo e amado como amado fora Rimini pelo Fellini, e Lisboa pelo Fernando Pessoa!

*Capa do Livro “Jaguaribe – Estante de Sentimentos”, do autor.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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