Crônicas

Pensamentos, afirmações, denúncias, auto estima, declarações e selfies

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Na internet, todos podem ser quem (ou o que) quiserem. Criam-se perfis falsos, destacam-se características que são tímidas ou inexistentes como força motriz de uma virtual personalidade. A rede permite criar novos horizontes, novos espaços de comércio, cultura, entretenimento e pensamentos. Cada um fala o que quer, e a verdade passa a ser (literalmente) relativa. Vive-se melhor no meio virtual do que no mundo real.

Os que antes precisavam de um copo de bebida para falar asneiras, escrevem e jogam nas redes sociais, o que muitas vezes torna-se viral através dos compartilhamentos por perfis semelhantes. É a “invasão dos imbecis”, imortalizou aquele que enriqueceu não só a cultural italiana como a internacional nos campos da filosofia, literatura, semiótica, comunicação e análise da sociedade contemporânea, Umberto Eco. Nascido em Alessandria, capital do Piemonte (região italiana da qual só conheço Torino, ou Turim para os brasileiros), o autor de “O nome da Rosa” escreveu também um dos últimos livro que li, “Número Zero”, cujo enredo, o mau jornalismo, nos é contado através das lentes do chantageado, manipulado e amedrontado editor do Jornal “Amanhã”, um romance passado em início dos anos 90, na qual celular ainda era uma ideia sem nicho no mercado.

Compartilho várias ideias do glorioso pensador que desde a sexta-feira última (19) tomou posse de uma cadeira de honra na eternidade. Uma delas, sobre legado para o futuro, é reinterada em uma das minhas últimas Crônicas Cariocas: “Se tivesse que deixar um legado para o futuro, deixaria um livro, e não em formato digital”.

Digital. Outro assunto dramático ocorrido na semana que se passou envolve diretamente a internet e Umberto Eco. A morte do filhote de golfinho em uma praia na Argentina, causada por turistas que precisavam alimentar as suas redes, seus perfis… Tirar selfies. Tiraram Selfies com um pobre ser que provavelmente se perdeu dos seus e veio parar próximo às areias. Tirar selfie não pode ter um link com tirar vidas. O verbo é o mesmo, mas os objetos são infinitamente diferentes. Seria realmente justo se, em algum canto do planeta, golfinhos ou outros seres marítimos “pegassem emprestada” uma criança humana para alimentar suas redes sociais. Quem sabe assim as coisas começassem a ser vistas por um ângulo mais real. Mas, ainda assim, acredito que não fosse possível. Os imbecis continuam por todos os lados, em bandos cada vez maiores. Quais os limites reais e virtuais das ações e ideias humanas? Tomemos mais cuidado com o que postamos por aí.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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