Crônicas

Pequenas Histórias

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

No restaurante da serra, ao final do almoço, perguntei se havia chá verde. O atendente disse que havia chá, mas não chá verde. Quis saber que sabores estavam disponíveis e o rapaz foi verificar. Voltou todo contente:

– Eu pensava que não havia chá verde, mas há dois tipos.

Dito isto, colocou as opções em cima da mesa para que eu escolhesse. Um era de hortelã, o outro de capim limão, mas ambos tinham embalagem verde. Preferi tomar café.

* * ** * *

Muitas pessoas, entre as quais me incluo, gostam de ler para-choques de caminhão: são divertidos e de vez em quando se aprende alguma coisa com a sabedoria popular. Encontrei meu para-choque inesquecível na Via Dutra. As letras estavam gravadas em espelho, como se a pessoa que fez o serviço tivesse por engano colocado o molde ao contrário. Era como ler uma camiseta pelo avesso. Como se não bastasse, a frase estava de cabeça para baixo, dificultando ainda mais a leitura. Despertou tanto a minha curiosidade que não deixei o marido ultrapassar o caminhão até decifrar a charada. Dizia simplesmente “Já que está deixa ficar”.

* * ** * *

Imbatível é a história do noivo que pediu ao futuro sogro, como presente de casamento, um relógio de ouro de marca famosa. Como a família da noiva era rica, ganhou. Eles eram muito jovens e o casamento durou pouco. Dois ou três anos depois do divórcio, o rapaz tornou a se apaixonar e repetiu ao novo futuro sogro o pedido: um relógio de ouro da mesma marca famosa. O pai desta noiva, de posses bem mais modestas, ficou assustado, mas o noivo imediatamente o acalmou:

– Olhe, se o senhor quiser, eu tenho um relógio desses e posso lhe vender por um preço muito inferior ao de mercado.

O homem respirou aliviado, e topou. Bom negócio é isso aí.

* * ** * *

Há também o caso da pessoa que resolveu o problema da visita a quem você pergunta o que quer beber e ela responde:

– Qualquer coisa.

– Tenho. Vou buscar.

Tratava-se de uma garrafa na qual o anfitrião ia misturando os restinhos das (boas) bebidas alcóolicas que servia, com um rótulo caseiro onde estava escrito “Qualquer coisa”. Não me perguntem qual o gosto daquilo, nem quantos inimigos ele fez com esse método.

* * ** * *

Estávamos três ou quatro pessoas reunidas quando chegou alguém com um jornal pedindo nossa opinião sobre uma das notícias. Era alguma matéria a respeito da cidade ou do país, não recordo exatamente o assunto. Depois de ouvir os comentários, o dono do jornal perguntou:

– Vocês repararam na data?

Era um exemplar de três anos antes! Esse episódio transformou completamente a minha forma de olhar para os jornais: renovação para valer encontro apenas nas páginas sobre ciência e tecnologia. O resto praticamente só muda de nome e endereço.

* * ** * *

Descobri, numa revista de avião, que no Chile há um local denominado Alto Hospicio.

Não podemos ironizar os vizinhos porque existem coisas bem parecidas por aqui. Só para citar dois exemplos, no Rio Grande do Sul há uma cidade chamada Não-Me-Toque e outra chamada Entrepelado. Sem falar em nomes quase impronunciáveis como Itaquaquecetuba ou Jericoacoara.

Mas, convenhamos, Alto Hospicio é demais. Tenho uma lista de pessoas que facilmente se qualificariam para morar lá.

O anúncio era de apartamentos de luxo e trazia o preço: muitos millones de pesos chilenos. Uma vez que os “ll” se pronunciam em castelhano com o som de “j”, nunca consigo evitar um sorriso quando leio essa palavra imitando mentalmente o som maroto. Vejam quanta coisa pode se esconder atrás de um anúncio inocente e bem intencionado. Desavisados esses chilenos.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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