Por aí, com Uber

by Bia Mies | atras 1 semana

São nove e trinta e dois da manhã e no visor do celular já aparece a indicação de que o preço do carro que eu pedi foi computado. A placa com final trinta e dois está a um minuto de distância, me informa o GPS. Nesses segundos finais a gente geralmente fica um tanto quanto ansioso, entrar ligeira no automóvel e logo em seguida chegar ao “Para onde” definido no telemóvel. O veículo que liga a seta e vem encostando é preto. Um senhor baixa o vidro do motorista quando eu tento abrir a porta.

– Seu Marcelo? – pergunto.

Ele confirma com a cabeça e pede para eu esperar. Pergunta se eu quero por a mala no bagageiro.

– Não, tudo bem. Ela pode ir comigo aqui atrás, sei que é ruim de parar lá. O “lá” é a Novo Rio, rodoviária intermunicipal carioca. Entre ele sair do carro e abrir a porta para mim, reparo no adesivo que tentaram descolar da porta, desses que o carro ganha quando é rebocado ou autuado. Fico com um pé atrás, mas entro mesmo assim.

Seu Marcelo tem um semblante cansado e triste, desses que as pessoas que costumam dar duro na vida acabam carregando. Começamos uma conversa qualquer e depois de alguns “sim, por favor”, “não, obrigada” e “pois é”, direcionamos o foco do tetê-a-tetê para “absurdo!”, “que isso?!”, “não está fácil”, “ah, que sacanagem!”, sobre a situação da segurança no estado.

Ele é motorista de Uber há quase um ano. Mora na baixada fluminense e costumava dirigir por lá, onde também trabalha como auxiliar de enfermagem. O extra como motorista ajudava a cobrir as despesas mensais e guardar algum trocado. O problema todo começou quando chamaram seu carro pelo aplicativo e, depois que dois passageiros embarcaram, Seu Marcelo se viu obrigado a ficar no meio do caminho. Sem celular, sem carro, sem lenço e sem documento, num sol de quase dezembro.

– Se eu pudesse, enviava uma carta de agradecimento aos meliantes. Pelo menos não fizeram nada comigo. Foi um assalto nota 10.

Seu Marcelo continua, dizendo que pagou o resgate do carro, tirou todos os documentos de novo e continuou rodando para recuperar o dinheiro perdido. Até que, novamente solicitado, foi vítima de novos falsos passageiros.

– Dessa vez um deles colocou uma das mãos no meu bolso e deu a ré no carro, comigo dentro. Depois pediu para que eu saísse. De novo agradeço por ter saído ileso. O carro consegui recuperar pelo seguro – que tinha teimado comigo em colocar um rastreador no veículo, visto ser um carro barato. Mas foi assim que consegui até os documentos de volta. Então venho tentando rodar aqui no Rio de Janeiro. O índice é bem menor…

E então me recordo da cena de ontem. Estava caminhando pela Nossa Senhora de Copacabana quando vejo uns pivetes a frente. Tento mudar a direção na calçada e avisto outros tantos do outro lado. “Vou ter que passar por um ou por outro“, penso, na tentativa instantânea de entender qual é menos nocivo. Mais à frente do primeiro grupo tem uma fármacia, e há várias pessoas na porta. Decido-me por continuar. Entre mim e a entrada da drogaria há um ponto de ônibus; um se aproxima, janelas abertas com rapazes sem camisa gritando e se movimentando. Passo por trás da parada, muitos pivetes ali também, eu nervosa, pensando em passar uma imagem de quem está tranquila, quando duas motos sobem a calçada em minha direção, com dois policiais. Eu passo. Eles detém todos ao meu redor. Mais dois se aproximam com armas em punho. Chego à farmácia e minhas pernas tremem.

– Mas aqui em Copacabana também não está fácil. Ontem mesmo passei por uma situação ruim. Não me levaram nada nem fizeram nada comigo, mas não foi nada seguro.

Seu Marcelo continua dirigindo e diz que seria necessária uma ordem de choque. Mesmo que não oficial, já que, se depender de algo oficial, nada muda.
Estamos nos aproximando da rodoviária quando seu Marcelo me diz:

– Olha, fique atenta quando for pegar um uber. Não é só porque é aplicativo, com tudo registrado, que é seguro. Quando levaram meu carro, meu celular ficou dentro, funcionando. Eles costumam roubar para poder pegar outras pessoas como passageiras e roubá-las. Quando o carro chegar e voce conferir a placa, peça ao motorista para baixar o vidro, veja se a foto dele bate com a pessoa que está sentada no lugar do motorista; veja se o carro está vazio. Depois entre. Não entre sem estar certa de que o carro é seguro.

Terminada a viagem, nos despedimos, dei cinco estrelas para ele e me senti na obrigação de passar essa dica tão importante a diante. Se você é usuário do Uber, fique atento antes de embarcar.

Um bom domingo a todos!

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