Crônicas

Por mais páginas a virar, não telas

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Inicialmente pensei em amarrar as palavras que seguem em um todo intitulado “páginas”, até que uma consulta ao dicionário Aurélio detive-me:

 

Página:

• Qualquer dos lados de uma folha de papel

• O que está escrito ou impresso nesse lado.

• Extrato de um livro.

• Período ou fato notável na vida de um homem ou de uma família, na história de um povo, de uma nação, da humanidade.

• Qualquer superfície do limbo de uma folha.

• Documento disponível na Internet, geralmente escrito em linguagem HTML, acessível eletronicamente em determinado endereço URL.

• “a páginas tantas”: a certa altura, em determinado momento.

• “página de entrada”:a página inicial de um sítio da Internet, que contém a sua apresentação e links para outras páginas.

• “páginas amarelas: lista de contatos telefônicos, geralmente impressa em folhas amarelas e organizada por atividades comerciais.

• “virar a página”: mudar o tema de conversa, seguir em frente, superar uma situação difícil.

• “voltar a página”: o mesmo que virar a página.

 

Não sou contra as novas tecnologias, sou usuária de smartphone,  notebook, Internet, máquinas digitais (embora vira e mexe ande com a minha polaroid por aí) e softwares de última geração. Sonho em comprar minha impressora 3D, máquina de corte a laser (coisas de arquiteto) e que ainda vou cair de amores por novidades de tela plana e a prova d’água que venham a sair no mercado.  Mas eu de-tes-to o Kindle.

A favor da sustentabilidade eu sou, mas, acima de quase tudo, apaixonada por páginas de papel. Um livro é um livro, não um boteco fracassado em um beco esquecido de cidade, no qual um único cliente entra, senta-se e leva uma eternidade para ser atendido… ou encontrado, se a intenção for perder-se mesmo. Não gosto de ler páginas e páginas que não podem ser viradas com o tato, páginas que emitem luz ou desligam. Gosto das que lançam magia em meio a rotina, que tem todo um papel na transformação da vida de um leitor… Porque não se carrega um livro na tomada, mas debaixo do braço, dentro de uma bolsa ou, ainda, entrelaçado aos dedos enquanto se atravessa uma avenida.

Na procura por livros um tanto quanto raros em sebos – e aqui não importam se físicos ou virtuais -, a posterior dificuldade para alguém que, como eu, tendo alergia a poeira, tem que deixar agrupados de papéis enegrecidos e mofados pelo tempo tomando sol antes de poder desbravar suas ideias,  é saciada pelo mundo de fantasias cujas capas antecipam. Ter cuidado para não amassar as folhas,  ficar na memória o tipo de marcador de páginas usado – até mesmo aquele cupom fiscal esquecido dentro da bolsa – em uma história marcante, poder pegar o autógrafo do autor, eternizando novamente obra em sua criatura que assim permanecem e perpetuam-se. Parodiando minha frase favorita de Shakespeare:  tratai bem os livros, pois eles são a crônica e o breve resumo dos tempos.

Um meio digital não é real. Um e-book se extingue com um vírus em bancos de dados enquanto físicos podem sobreviver até em cemitérios de livros, como na Barcelona antiga deliciosamente descrita por Carlos Ruiz Zafón um livro faz parte do nosso crescimento, a leitura escondida no meio da noite, dentro das cobertas e com o auxílio de uma lanterna   nos torna pessoas mais sagazes. Nada mais relaxante do que passar todo um dia a ler um livro de verdade,  marcado pelas digitais dos que por ele se aventuraram,  vestígios de mosquitos que pousaram em sua pele lisa e ali ficaram, o aroma eterno de flores que fazem do seu aconchego a última morada. Um livro é um livro. Não uma scatola ambulante. Um livro tem capa, dura ou maleável, ilustrada, com o título em dourado, alto/baixo relevo ou ainda verniz. Um livro, para mim, vai ser sempre um livro.

Contraditório eu escrever semanalmente para um meio cibernético?  Pois a vida é contraditória.  Uma coluna não é um livro, pode ser seu ensaio. Não é que não tenha sua importância. Mas isso é um outro texto.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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