Crônicas

Posteridade

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Por que é que eu haveria de me preocupar com a posteridade? O que é que a posteridade alguma vez fez por mim?
(Groucho Marx)

Quem foi realmente Noé, se é que existiu? Que medos teve, quais as suas ambições, era feliz? Que diferença fez para ele transformar-se num mito? Que diferença faz para o huno Átila o que pensamos dele na atualidade? Pessoas falecidas não tiram nenhum proveito da opinião que formamos sobre elas: no máximo a fama recai, para o bem ou para o mal, na descendência que porventura ainda puder ser identificada.

Que bobagem é essa da gente se importar com o julgamento que farão de nós daqui a dois séculos? Não estaremos disponíveis para receber louvores nem críticas, e mesmo assim há quem se preocupe com a notoriedade que possa ter no futuro.

Para os que acreditam que a verdadeira vida vem depois da morte pode fazer sentido, mas até hoje não há provas de que nesse outro patamar os valores sejam os mesmos da vida terrena. Em geral a crença vem acoplada a uma religião, coisa de foro íntimo, e as descrições do paraíso são um bocado conflitantes. Os faraós do Egito antigo, com suas maravilhosas pirâmides, deixaram marcas para a posteridade, mas é improvável que tenham tirado disso algum proveito. Aparentemente nem desfrutaram dos objetos com que se fizeram acompanhar no túmulo, esses só serviram para atiçar a cobiça dos ladrões. Os terroristas que se explodem, e levam junto uma porção de inocentes, também acreditam que estão deixando a sua marca para a posteridade, e abrem mão da vida terrena por um paraíso em que tudo lhes será provido. Quem sou eu para discutir com indivíduos que pensam dessa maneira?

Mas não se trata só de crença religiosa: muitos ambicionam deixar sua marca no mundo, como se quisessem desfrutar de algum tipo imortalidade. Pode ser uma música, uma invenção, uma descoberta, um filme, um livro.

Na maioria dos casos, o esforço exigido para deixar uma obra póstuma relevante é imenso. Só encontro uma explicação plausível para trilhar caminhos tão difíceis: a Natureza embutiu tal comportamento no genoma humano. De que outra forma se justifica correr atrás de objetivos que nos exigem tanto, em muitas situações sacrificando aspectos importantes da nossa existência ou daqueles que nos são próximos?

Nós não precisamos do reconhecimento da posteridade. A posteridade é que precisa de nós para acumular cada vez mais conhecimento. No fundo, tudo gira em torno da sobrevivência da espécie.

Sou grata às gerações anteriores que tornaram a minha vida melhor e peço desculpas às gerações futuras se não consegui deixar um legado maior. Tive boas intenções, cuidei bem do meu quintal, mas a carne é fraca, vocês sabem como é. Fica para a próxima, se houver.

 

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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