Crônicas

Preconceito

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Alguém me diga como evitar o preconceito, porque me parece impossível.

Não estou falando de preconceitos óbvios e primários, tipo raça, sexo ou religião. Penso que desses, tomara esteja certa, eu estou livre. Mas talvez não.

A esposa foi com o marido ao médico. Nada muito grave, apenas verificar como estava um pé torcido há dois meses. Ela o acompanhou apenas porque ele ainda sentia alguma dificuldade para dirigir. O médico receitou umas compressas, mas o fez olhando diretamente para a mulher. Por que? Não era nada que o marido não pudesse fazer sozinho, mas o médico, preconceituosamente, assumiu que o papel da mulher era proporcionar conforto ao amo e senhor.

Se a paciente fosse a esposa, muito provavelmente o doutor teria falado com ela sem fitar o marido. O preconceito é sutil e espreita atrás da porta: o médico só percebeu o que estava insinuando quando a mulher reclamou. E, pior: o marido não tinha achado nada de estranho na forma como as instruções de cuidado com o seu pé estavam sendo passadas.

Na nossa sociedade, principalmente entre as mulheres, há preconceito contra a velhice. Todo mundo quer ser jovem, ou pelo menos parecer jovem. Em parte por medo do sofrimento que isso possa causar, mas também por conta da rejeição social. Que mérito há em ser jovem, algo que nos é dado de graça pela Natureza? Mérito, se existir, é ser velho e continuar vivendo feliz, apesar de compelido a repetir os mesmos gestos durante trinta, quarenta, cinquenta anos. Faz parte da juventude o jovem não se lembrar de que um dia será velho. Deveria fazer parte da velhice o orgulho de ter sobrevivido aos desafios da vida.

O rapaz de outro estado avisou a família tradicional que estava namorando uma carioca, que a coisa era séria, e que o plano era casar em menos de seis meses. Os pais, assustados, inventaram imediatamente uma viagem ao Rio para conhecer a candidata. Tinham a ideia pré-concebida de que as cariocas não são confiáveis. Como assim?! Basta o sotaque de um indivíduo para que façamos sobre ele um julgamento superficial e o enquadremos numa categoria pré-concebida. Se for oriundo de uma área geográfica menos desenvolvida, vai ser rotulado negativamente. Se for oriundo de uma área geográfica de primeiro mundo, recebe automaticamente um bônus positivo. Os preconceitos não necessariamente são depreciativos. Os preconceitos se apresentam sem serem chamados. Qualquer coisa serve como gatilho: a forma da pessoa se vestir, a aparência física, o bairro onde mora, o tipo de música que escuta. Há algum respaldo estatístico nesses julgamentos, mas é individualmente injusto.

Confesso: tenho preconceito contra quem joga lixo na rua, contra quem não respeita a liberdade de pensamento, contra quem curte má literatura, contra quem buzina, contra homem que pinta cabelo, contra quem comete erros de ortografia, contra o mau gosto, contra a burrice.

Homem que pinta cabelo? Mas eu pinto o meu a toda a hora! Por que eles não teriam o mesmo direito?

Erros de ortografia? Que coisa mais sem sentido: eu cometo erros de ortografia de vez em quando e várias pessoas maravilhosas que conheço escrevem com erros crassos!

Mau gosto? Nem sei direito definir isso!

Burrice? Por quais parâmetros, e quem sou eu para julgar?

O pior é reconhecer o quanto os nossos preconceitos nos definem e o quanto nos são úteis para classificar as tribos. Por mais que tentemos conservar a mente aberta e racional, acabamos por julgar muita coisa por esse filtro. No máximo conseguimos manter os palpites sob controle antes de cometer alguma injustiça. E reagir quando o alvo somos nós. E perdoar, porque afinal, até de forma inconsciente, tanto podemos estar do lado que sofre o preconceito quanto do lado que o exerce. Ninguém escapa.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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