Crônicas

Que assim se faça justiça à aplicação e ao meu amor pelas janelas

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Gosto de janelas. Particularmente das italianas, porque parecem as protagonistas, em todas as casas. São dignas de todas as exclamações. As finestre, aqui, conversam entre si. São mais espontâneas. Mais vivas. Coloridas, de dimensões diferentes, folhas várias, de madeira, vidro, metal. Com flores. Parecem nos olhar de todos os lugares, com um mistério fascinante a brilhar por volta das íris, tal qual Monalisa.

Gostariam (tenho certeza) de nos contar histórias e mais histórias, por horas a fio. Histórias que seus olhos – bocas e narizes – presenciaram por anos, séculos, quiçá milênios. Seus perfumes nos lembram livros com páginas amareladas, daqueles nos quais alguém guardou rosas e jasmim, secretas provas de amores proibidos. Parecem ter asas e voar pela noite, uma noite especial em que todos – sem exceção – dormem. Mas se disfarçam de vovós idosas que, sempre ao pé de uma lareira, estão a tricotar e sorrir.

São muito adequadas, elas também, ao ofício de emoldurar fotografias. Se alguém põe-se frente a um destes exemplares, dentro de uma casa, tem a possibilidade de capturar uma paisagem, tal qual um quadro ou obra de arte; ao se posicionar do lado oposto, rouba um segundo de um momento privado, uma fotografia atualíssima em tempo de drones e ‘paparazzi way of life’. É invasiva e única tal foto. Mas as janelas abrem-se para as belezas de uma cidade, fechando-se para preservar pessoas e objetos. São sentinelas e serviçais, igualmente.

Por elas, não menos importante, entra a luz e circula o oxigênio: purificam e iluminam a escuridão e a insalubridade de um cômodo; sem elas, inabitável est. Imagine uma gruta, em tempos de homo sapiens: escuridão e casa como refúgio. Idealize, pois, como seria você dentro de um ambiente desses. Passam-se os anos quando, então, um ser muito sábio vê o potencial que teriam tais aberturas, desenvolve da porta simples a primeira janela. Foi como se Deus tirasse a costela da porta e criasse algo mais delicado e gentil. Com grau extra de utilidades e infinitamente mais graciosa. Tais aberturas são passagens pelas quais não passamos. Permanecemos.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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