Crônicas

Que saudades do meu “Cine Paradiso” em Jaguaribe!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Dizem que a orientação veio do Vaticano. Foi o que li. Essa, a orientação, veio diretamente para a Nossa Senhora – e de todos os que nela creem – da Igreja do Rosário, no meu bairro Jaguaribe. Assim mesmo. O aviso chegou para os padres de plantão: “Construam um cinema”! E assim ou mais ou menos assim, com a famosa “expressão divina, aquela, “Fiat Lux!”, nasceu o cine Jaguaribe. Fez-se a luz!

Sobre essa “determinação”, o crítico de cinema João Batista de Brito escreveu que essa foi do Papa Pio XI, “Autor de uma encíclica fundamental para a história do cinema nos países católicos do mundo”, promulgada em 1936, chamada “vigilanti Cura”. Essa encíclica (que palavrinha!) chamava a atenção para importância do cinema, e estimulava as paróquias a fundarem casas de exibição.

A encíclica dizia que “o cinema é na realidade uma “lição de coisas” (“rerum schola” no latim original). Que, para o bem ou para o mal, ensina a maioria das criaturas muito mais efetivamente do que o faz o pensamento abstrato”. Pois bem. O ano? Segundo os mais velhos do que eu, em especial o meu velho e saudoso pai Heráclito de Almeida, esse nada de segundo, mas primeiro, foi de 1955!

Também não sei se foi ele, o meu pai Heráclito de Almeida, aquele primeiro a me dizer ter sido o filme “Romeu e Julieta”, esse que pela data de exibição, 1955, repito, foi o primeiro a pintar na telinha branquinha feito picolé de coco desse meu “Cine Paradiso”. Acho que não. Não foi ele. Também li por aí.

Lembro que os filmes que ali “debutavam” eram todos de conteúdo religioso. Todos não, exagero, maioria. E tudo tinha a ver. Pausa. E a assistir. Afinal, aquela casa de diversão era conhecida como o “Cinema da igreja”. Uns, porém, esses mais cheios de fé, acredito, preferiam chamá-lo de “Cinema dos padres”. Era assim: “Em que cinema está passando um bom faroeste? No cinema da igreja! Aonde? Aquele dos padres!”.

Mas, como não poderia esquecer, embora o filme nessa história seja outra, essa sobre o meu Santo Antonio, outros dois cinemas também entravam para a história do meu bairro: o São José, situado na Rua Senador João Lira, numero 607, esquina com a Floriano Peixoto, s/n, e o Jaguaribe, esse que ficava na Capitão José Pessoa, esquina com a Aderbal Piragibe.

Portanto, sendo a história do Santo Antonio, cine que ficava na Avenida Primeiro de Maio, número 146, endereço inesquecível, pelo menos para este “malabarista de palavras”, que está sendo contada, essa que menino-jaguaribe ainda peguei um bom pedaço, com muitas cenas e feriados inesquecíveis, deixemos esses (os outros dois cinemas do bairro) para outra história. Pausa. Ou seria para outro filme?

Naquela época, essa agora distante, os filmes que desfilavam pela telinha do Cine Teatro Santo Antonio – assim mesmo, “Teatro” -, eram mesmo em sua maioria chamados “religiosos”. Assim mesmo, religiosos, pois não tínhamos vocabulário nem conhecimento suficiente para intitulá-los, por exemplo, de “filme de conteúdo religioso”. Ora, afinal, aquele era um “cinema dos padres”, um “cinema da igreja”.

Mas as minhas idas – e vindas – ao Cine Santo Antonio nos tempos de menino-jaguaribe, comecinho da minha história com ele, eram nas manhãs de domingo! Sessão matinal! Sessão das nove e meia! Ah, belas lembranças! Era também ali, na sua – do cinema – calçada, enorme para nós pequenos, parecendo a maior praça do mundo, que os meninos-jaguaribe, esses em especial, trocavam as mais difíceis e belas revistas em quadrinhos e figurinhas!

As mais cobiçadas revistas eram aquelas que contavam cena por cena o filme a que iríamos assistir ou assistido ao mesmo teria sido semanas antes. Tarzan, Zorro, Billy the Kid, Jesse James, Wyatt Earp, esse que nunca nos arriscávamos a pronunciar o seu nome, e outros mais pronunciáveis. Filmes em revista! Que beleza!

Lembro-me que o primeiro filme a que assisti na tela do meu cine Santo Antonio, esse que trazia em sua fachada o glamouroso nome de “Cine Teatro Santo Antonio”, casa de diversão essa em que nunca assisti a uma só peça de teatro, foi “Tarzan, o Rei da Selva”! E esse, assim como muitos, trazia no papel de Tarzan, lembro-me bem, o mais famoso dos Tarzan, Johnny Weissmuller, romeno que antes mesmo de ser um “boy” migrou para os Estados Unidos, levado pela família de etnia alemã.

Mas, como eu dizia e continuo dizendo, o filme foi uma verdadeira descoberta pra este menino-jaguaribe! E o grito de Tarzan que ecoou nos seus – do menino – ouvidos como se Tarzan estivesse ali escondidinho por trás da tela branquinha feito picolé de coco?! Pois foi assim que soou – pela primeira vez – o “grito” famoso daquele Tarzan que ficaria tão famoso quanto o dono dele! Ou muito mais!

Havia naqueles tempos uma disputa para quem iria pegar o melhor lugar na “parte de cima” – nada de “balcão, “parte de cima” mesmo – do Cine Santo Antonio, parte essa que era tomada em sua maior parte pela criançada do bairro! Não se sabia quais eram as cadeiras mais disputadas. Aquelas que nos deixavam “cara a cara” com o mocinho, recebendo na cara a poeira levantada pelo seu cavalo, ou aquelas lá em cima em que não era preciso ficar de pé para ver a tela em “cinemascope”!

Silver ou Tornado do Zorro ou o Silver do Cavaleiro Solitário; Trigger de Roy Rogers, “o cavalo mais inteligente do cinema”; o Diablo do Cisco Kid. Esses eram os cavalos famosos da época. E todos sonhavam em cavalgar um deles na perseguição de bandidos famosos como Jack Wilson (Jack Palance), aquele “frio e calculista” de “Os brutos também amam”!

Mas, para não ficarmos apenas nos “faroestes” – nunca os chamávamos de “bang-bang” -, também eram exibidos ali muitos filmes de aventuras. Assistíamos ainda a Carlito, imorredoura criação do genial Charles Chaplin, e famosos seriados. Assistíamos ainda Joselito, o Menino da Voz de Ouro, e Sara Montiel cantando “La violetera”. Tudo isso naquelas matinas que eu “me lembro com saudades do tempo que passou!”.

Lembro-me muito dos risos dos meninos – eu era um deles, não esquecer – que provocavam mais risos do que aqueles tirados pelo imortal vagabundo! Parecia um torneio em que o vencedor era aquele que saía do cinema e chegava em casa sorrindo tanto que não conseguiu dizer aos pais o motivo daquele sorriso sem censura! Que beleza! E os seriados? Esses eram apresentados antes ou nos intervalos dos filmes. Intervalos! Estranho, não? Mas eram!

No começo ou – como falei- nos intervalos assistíamos a famosos seriados como Nyoka, a filha da selva; Os tambores de Fu manchu; O cavaleiro fantasma; Fantômas; Capitão Marvel e outros não menos famoso que a memória deixou pelo caminho! Uma memória com a pressa de um Corisco, outro belo cavalo desses tempos. Tudo para reviver aquele inesquecível duelo ao por do sol entre Jesse e Lewt, por causa de Pearl, na Rua de Paradise Flats!

Até quinta, Isabelas!

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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