Crônicas

Quem quer ser professor?

Campista Cabral
Escrito por Campista Cabral

Este texto não pode ser chamado de crônica!

Este texto é, acredito eu, um desabafo, um fio de voz. Uma voz inconformada com o cenário atual. Uma voz que, através da escrita, encontra uma maneira de dizer as coisas!

Este texto é também um relato. Um pouco das minhas memórias…

Sou professor na rede estadual de educação do Rio de Janeiro há aproximadamente 20 anos. Amo o que eu faço. Acredito na educação e acredito nos meus alunos! Faço com paixão o meu trabalho! Entretanto, em muitos momentos da minha vida, pensei em desistir de trabalhar com educação. Confesso que, apesar da minha paixão pela profissão, ainda sinto vontade de desistir.

Ao longo desse tempo, inúmeros planejamentos, diversas provas e correções, muitas aulas e muita conversa foi produzida. Conheci pessoas fantásticas! Professores e alunos! Conheci pessoas mesquinhas e ruins! Professores e alunos! Mas o que mais me chamou a atenção nos anos de docência foram as pessoas que tinham enorme capacidade, porém, não tinham mais forças, ânimo para dar o melhor de si. Professores e alunos.

Através de mais conversas e observações, percebi que o sistema e as várias políticas de educação vividas na rede foram deixando marcas profundas no trabalho de muitos. Desestimulando, enfraquecendo e anulando pessoas incríveis e projetos interessantes!

Trabalha-se muito e ganha-se pouco. Há muitas décadas!

Em 2013, depois de muito relutar (sempre acreditei que nunca poderia exercer uma função administrativa) assumi a função de diretor adjunto. Não me arrependo da opção, mas certamente não faria de novo! Aprendi bastante, no entanto, sofri muito também! Vi o que não é pensar educação: burocracia, metas empresariais, artificialismo técnico, estatísticas e a triste frieza dos números. Planilhas pardas que nunca evidenciaram a fome, a violência e os demais problemas político-sociais.

Foram três anos exercendo uma função que, simplesmente, me tirou a possibilidade de pensar em uma escola diferente (projetos, dinamismo e, principalmente, autonomia). Como professor, sempre pude articular, dinamizar, criar e repensar a prática docente. Como diretor, o contrário, fiquei engessado. Não podia criar, mas tinha que seguir um “padrão” porque, segundo uma concepção de empresa, modelos de sucesso em produção deveriam ser copiados para que se alcançassem os índices desejados. Contudo, escola não é empresa e nunca será!

A escola representa um espaço muito mais complexo e diverso que uma empresa jamais poderia ter! E acrescento um dado que geralmente é esquecido pelos burocratas, lidamos com crianças e jovens. Mais que isso, lidamos com angústias e sonhos de crianças e jovens.Lidamos com frustrações e medos de crianças, jovens e pais. Isso, nenhuma planilha e nenhuma estatística podem concretizar de fato. Planilhas e números não sentem fome e medo! Pessoas sentem!

Quando me dei conta de que, apesar dos esforços, não conseguia avançar, mas, ao contrário, o sentimento de frustração e de impotência conduzia o meu trabalho, resolvi sair e voltar à sala de aula. Sábia decisão.

Fiquei triste porque vivi na pele o que a burocracia e a falta do trato pedagógico fazem na área administrativa. Não se olha a escola como escolastrong>. Escola com todas as suas particularidades (por isso o “padrão” não serve). Escola com todos os seus fantasmas e feridas. Uma pena! Uma pena porque mais uma geração e mais uma década foi jogada fora!

Hoje, trabalhando em três turnos, entre três instituições diferentes, chego em casa bastante cansado e preocupado com tudo o que tenho que resolver. Quando saio do espaço escolar o meu trabalho me acompanha. Cada vez tenho menos tempo para ler porque preciso trabalhar! O custo de vida no país é absurdo e, pensando em um salário de professor, ainda pior!

Hoje, penso, em muitos momentos, em deixar a sala de aula definitivamente. Trabalho muito e o ganho não é proporcional. Se fosse um deputado, senador, vereador ou prefeito, teria vergonha de reclamar de greve de professores. Eu levaria uma vida para ganhar o que ganham. E, desculpem-me o jeito, eu estudei muito para o meu ofício para receber um salário tão baixo. E continuo estudando (apesar do tempo cada vez mais curto).

Hoje, em muitas universidades, os cursos de licenciatura recebem menos e menos alunos. Quem quer ser professor? A desvalorização da profissão é nítida e perversa! Os baixos salários são, no mínimo, aviltantes (eis a razão da grande maioria trabalhar em três ou quatro lugares), enfim, tudo leva a um quadro assustador: o que será do professor? O que será da profissão? Robotização? Extinção?

Hoje, continuo tendo paixão pelo que faço. Tenho orgulho do que construí de maneira honesta e cheia de sacrifícios. Escrevi uma história acreditando em uma educação real, com pessoas de carne e osso. Escrevi uma história acreditando que as aulas mais significativas estavam e estão fora de sala de aula.

Não faço parte de sindicato algum (e não pretendo fazer). Nunca fui filiado a nenhum partido (e não pretendo me filiar). Entretanto, não preciso ser ou estar em partido ou sindicato para exercer minha cidadania. E exerço. Cada vez que escrevo, exerço a suada cidadania conquistada pelos séculos de história! Sou professor e estou cansado de mendigar salário! Sou professor e estou cansado de gestões ruins que deterioram a cidade, o estado e o país e deixam a conta para todos! Sou professor e estou cansado de ver escolas caindo aos pedaços! Sou professor e estou cansado de ver pessoas sendo tratadas como lixo! Meus alunos não são lixo! Meus alunos não são número! Meus alunos são pessoas e merecem o que todo ser humano precisa: atenção, carinho, oportunidades!

Sou professor e não quero deixar de fazer o que faço.

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Sobre o Autor

Campista Cabral

Campista Cabral

Escritor, poeta e cineasta amador. Publicou quatro livros. O REI, O POETA, A MULHER E O MAR (contos), TERRA BRASILIS (crônicas), PARA ENTENDER UMA NOVA EDUCAÇÃO (livro voltado para os problemas da educação no século XXI) e FORMAÇÃO DOCENTE E PRÁTICAS INOVADORAS (livro sobre novas práticas docentes no ensino superior). Realiza anualmente o FESTIVAL DE CINEMA DE TERESÓPOLIS e, dentre alguns trabalhos na área, destaque para o filme NOITES COM SOL (2011) e os documentários PALAVRAS (2008), CAMINHOS EUCLIDIANOS (2012) e O QUE É FELICIDADE? (2013). Escreve regularmente para o Escritartes (www.escritartes.com) e Recanto das Letras (www.recantodasletras.com)

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