Crônicas

Querer para merecer

Fabricio Mohaupt
Escrito por Fabricio Mohaupt

O assistencialismo é uma doutrina que defende a assistência aos mais necessitados da sociedade. Nada contra, desde que seja algo paliativo, ressaltando seu caráter provisório. É como ajudar aquele irmão que está na merda para que ele possa se reequilibrar e seguir em frente.

Não deveria haver uma oposição Assistencialismo X Meritocracia. Até porque receber mais recompensas pelo maior esforço, dedicação e trabalho não só é mais lógico como mais justo. Devemos ajudar o mais necessitado a se reerguer, mas ele tem que andar com as próprias pernas e, posteriormente, provar seu valor à sociedade e justificar a ajuda. Assim, um deveria levar ao outro.

Temos que entender que tudo o que damos tem que vir de algum lugar. Tudo que o governo dá a uma parcela do povo, ele tomou de outra. Ajudar ao próximo é louvável, mas ninguém quer trabalhar para sustentar aquele que não produz nunca, aquele que não quer trabalhar porque é mais fácil se declarar incapaz, sem realmente ser, apenas porque crê que é melhor viver de assistência.

O problema é a falta de amor próprio. É crescer pensando que a corrupção é normal. É ver a si mesmo como um povo medíocre, corrupto e sem futuro. É crer nisso e agir como tal. É dizer que os outros são indecentes e imorais, mas, ao mesmo tempo, achar que furar a fila e não devolver o troco dado a mais é totalmente aceitável. O problema é postura. Canso de ouvir fulaninho xingando o político para logo dizer que se estivesse lá faria do mesmo jeito.

O problema é pura e simplesmente educação. Não só a da escola, mas, principalmente, a de casa. Se você não ensina valores e amor próprio aos seus filhos, quem vai ensinar? O vizinho que também não ensina aos dele? Vivemos uma época em que queremos delegar à escola o que é nossa obrigação: educar nossos filhos. Sim, educar é conosco. A escola ensina. Muitos de nós não percebem a diferença ou se recusam a ver.

O problema não é o meu país. Somos nós, que não acreditamos em nós. O americano aprende, desde a época de colônia, que é o povo de Deus e que seu país é a Terra Prometida. E nós? Falamos mal do nosso país (mil vezes naturalmente mais rico e belo que o deles) e cremos que somos vadios e corruptos por natureza. “Está no sangue do latino!”, costumam dizer. Já ouvi teorias absurdas para sustentar essa crença, do tipo “os portugueses que vieram para o Brasil eram só os bandidos e os corruptos de lá, por isso que somos assim”. Estupidez.

Não me oponho à ajuda aos mais necessitados e aos mais pobres. Temos que ajudar mesmo. Mas ajudar a se erguerem. Não é “Não adianta dar o peixe, é preciso ensinar a pescar”. A meu ver, é dar o peixe enquanto ensina a pescar. Depois que ensinamos, tem que vir o mérito. A pessoa deve usar o que aprendeu para receber suas recompensas. O cara tem que querer aprender, tem que querer fazer. Uns levam mais tempo, outros menos. É necessário ensinar a pescar, mas, sobremaneira, é preciso fazê-lo crer que pode crescer, que pode evoluir, que merece mais e que só depende dele ir mais longe.

Tenho orgulho de alguns amigos que vi saírem de células familiares bem humildes e problemáticas, como a maioria das famílias do nosso Brasil, e que, movidos pela vontade de crescer, começaram trabalhando como contínuos e investiram o pouco que ganhavam para terminar a escola e começar a faculdade. Dois deles são advogados hoje. Outro é contador. Outros seguiram caminhos diferentes, mas todos seguem buscando crescer. Isso não é apenas oportunidade e acaso. Isso é índole e atitude. É crer em si mesmo. É buscar e fazer por merecer.

A questão é que os governantes (PT, PSDB, PMDB, PDT, PSOL, PQP ou qualquer outro que vi nessas minhas quatro décadas de vida) só usam o assistencialismo para se promoverem e para girarem capital. Aproveitam-se de tudo para desviar verbas e esquecem seu trabalho. Assistencialismo é muito mais que fome zero e bolsa família, muito mais que práticas demagógicas visando compra de votos.

Não se enganem, o governo deveria, com nosso dinheiro recolhido com os impostos, criar oportunidades iguais para todos. É deles a obrigação de uma boa educação pública, assim como de saúde e de segurança. É para isso que serve nosso dinheiro. O governo não cumpre essas obrigações e tenta, por meio de uma lógica absurda, convencer-nos que quem tem mérito é culpado por quem não tem, não importando o quanto você trabalhou e se esforçou. Usam desse discurso para justificar a cobrança de ainda mais impostos.

Educação leva tempo, dá trabalho e não é interessante para o corrupto. Enquanto a massa for burra e dependente, as políticas sociais assistencialistas perpetuar-se-ão do mesmo jeitinho perverso que é hoje. É o famoso círculo vicioso. Sei que é um discurso antigo, mas que é mais válido que nunca. A educação jamais esteve tão ruim. E achávamos que não poderia piorar.

Não somos burros, vadios e corruptos por natureza. Somos fortes, capazes e podemos fazer do Brasil a verdadeira Terra Prometida. Ajudando uns aos outros. Um povo unido e confiante. Sendo o povo de Deus, não importando a religião. Só nos falta crer e, principalmente, querer.

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Sobre o Autor

Fabricio Mohaupt

Fabricio Mohaupt

Rato de bancas de jornal, livrarias, sebos e obscuras salas de cinema. Escapista apaixonado por HQ's, livros, filmes, séries e música. Pai, marido apaixonado, carioca, torcedor do Flamengo, Maçom, Umbandista, cronista amador, roteirista aprendiz, metido a colunista, poeteiro sem métrica e de pouca rima, crítico descompromissado, futuro romancista, botequeiro (favor não confundir as sílabas) e um feliz estudante e entusiasta da vida e de psicologia, que nada sabe, mas muito quer aprender.

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