Crônicas

Reclamando

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Tenho sido obrigada a reclamar de tantas coisas ultimamente que estou pensando em fazer disso um modo de vida.

O INSS quer me ferrar, o plano de aposentadoria privada quer me ferrar, o plano de saúde quer me ferrar, os impostos do governo querem me ferrar, os juros do cartão de crédito querem me ferrar, o provedor de banda larga quer me ferrar, o seguro do carro quer me ferrar, até o fabricante do aspirador de pó quer me ferrar. Todo mundo atrás dos meus já minguados caraminguás. Ai de mim se não me defender.

Os atendentes dos SAC ao telefone, se, e quando, você consegue falar com eles, são um capítulo à parte. Ainda ontem esperei vinte e cinco minutos para ser atendida. Desisti, achando que alguma coisa estava errada ou que minha ligação se perdera dentro da central telefônica. Liguei para um segundo número que encontrei na internet, fui atendida prontamente, e… informada de que, o assunto que eu precisava tratar, só no primeiro número. Depois de mais trinta e cinco minutos de espera, ouvindo aquele fundo musical entremeado de propaganda de “para sua comodidade e conveniência”, e etc., consegui falar com uma moça. Muito educada, mas não muito paciente. Cortou o meu papo com uma daquelas perguntas que estão no manual para robôs. Ora, depois de tanta espera, o que a gente mais deseja é desabafar! Não sei por que é tão difícil entender isso… Expus o problema, e ela, irritantemente educada, disse que não podia registrar minha solicitação. Sugeriu que eu levasse os documentos até certo endereço onde, talvez, pudessem protocolar meu pedido. Talvez, frisou. Que documentos? Não soube dizer, e eu também não sei. Mas não vou desistir. Reunirei tudo que tenho sobre o assunto, incluindo as pesquisas na internet, mais a carteira de motorista e a conta da luz, e vou ao tal endereço. Eles não se livrarão de mim assim tão facilmente.

Desenvolvi tal persistência para perseguir os meus direitos que acho que posso explorar isso comercialmente. E não é só reclamar que eu sei, tenho também aprendido a ameaçar, a maioria das vezes com fundamento, outras por puro hábito, porque o cachimbo faz a boca torta.

Além da perda de tempo, esse negócio de reclamar de tudo, causou-me outro inconveniente: sinto que me tornei uma pessoa mais desagradável, com crises de mau humor. Pode ser difícil para quem está por perto, mas ajuda bastante na hora da reclamação.

Vou explorar minhas novas habilidades abrindo um escritório especializado em fazer reclamações. Serei chata e mal humorada profissionalmente. Bancos, operadoras de telefonia, órgãos públicos, nada me escapará Cobrarei preços módicos; porém, numa segunda etapa, pretendo associar-me a um bom advogado. Aí, sim, a renda vai crescer. Terei clientes aos montes.

Se precisarem de ajuda, estou aqui. Só não aceito reclamações sobre o meu serviço, é claro. Nem tentem, será inútil: não existirá ninguém à minha altura a quem vocês possam recorrer. Talvez eu ainda não esteja no topo da lista em matéria de reclamantes, mas com a prática diária a que as circunstâncias tem me obrigado, logo, logo, eu chego lá.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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