Crônicas

Rio: maravilha para quem?

Tchello d'Barros
Escrito por Tchello d'Barros

“A fotografia sempre me espanta,
com um espanto que dura e se renova,
inesgotavelmente.” Roland Barthes

Quem conhece a fotógrafa e produtora cultural Ana Claudia ‘Cacau’ Fernandes sabe que se trata de uma pessoa da maior sensibilidade quando o assunto é arte, natureza humana, família e afins. Mas na hora de ir a campo realizar seus ensaios, vem a tona seu lado aguerrido e uma arrojada determinação. Vemos isso em seus ensaios autorais em regiões inóspitas de um Brasil profundo, em seus documentários sobre arte popular, em alguma curadoria realizada na Europa ou em suas fotorreportagens em ocupações e desocupações no Rio de Janeiro, como Maré, Telerj, Olaria e afins.

Durante o ensaio fotográfico “Rio: Maravilha Para Quem?”, a fotógrafa conviveu com pessoas cercadas de incompreensão, lixo e miséria, mas que nunca deixam de sonhar, sempre mantém a fé e lutam cotidianamente por uma vida mais digna. Lá encontrou a esperança de um dia melhor e o anseio de um povo que grita por igualdade social, sejam minorias ou excluídos, viciados, doentes, mendigos, desempregados ou mesmo simples donas de casa e suas crianças. Porém, há também muitos que estão lá por puro oportunismo, como traficantes e até mesmo empresários inescrupulosos, como sempre, beneficiando-se da situação, explorando a matéria-prima da construção da tão sonhada “moradia”, ainda que irregular.

E no meio a este caos social, a fotoensaísta desafiou-se a retratar o que é vivido ali diariamente, transitando entre linhas muito tênues, entre o documental e o poético. Ao expressar aquele contexto fotograficamente, o registro das imagens factuais atrelado à promessa estética, por mais atroz e denunciador que seja tal conteúdo captado, é inevitável o encontro com o sublime, o exótico e o belo, num dia-a-dia onde a realidade, a ética e a sobrevivência brigam o tempo todo por um lugar de privilégio.

Assim, neste ensaio Rio: Maravilha para Quem? a fotógrafa questiona os slogans populares da cidade “Rio maravilha” ou “Cidade maravilhosa”, apresentando um contraponto entre a cidade maquiada para o turismo, “coisa pra inglês ver” e certos aspectos de uma dura realidade socioeconômica e suas faltas de políticas públicas para determinadas classes desse mesmo povo. O famoso Rio de Janeiro de belas paisagens, samba, praia, carnaval e futebol, também é constituído de uma desigualdade imensurável, com problemas sociais gritantes, que a classe dominante insiste em tentar esconder. Considerando-se a imagem como um elemento de sensibilização e transformação social, o ensaio nos permite lembrar também que na atualidade é possível uma produção fotográfica engajada, sem que seja meramente panfletária.

São retratos de um outro Rio de Janeiro, quase invisível, fotografias que denunciam o quanto a omissão da sociedade e do governo oprimem aqueles que realmente necessitam de ações concretas de cunho social. São imagens de opressões que não libertam quem vive a cada dia o desafio de também ser carioca em meio ao abandono, repressão e revolta, tônicas nesta série pautada também por resistência, luta e persistência de uma comunidade, onde o olhar arguto da autora não poderia deixar de observar/absorver também aspectos mais intimistas desse conturbado cotidiano, seja numa mãe que segura amorosamente seu bebê nos braços, seja na serenidade de um semblante senil ou ainda na pureza das brincadeiras de crianças.

Para revelar estas faces e facetas anônimas de uma cidade que se quer maravilhosa, a fotógrafa valeu-se recursos e atitudes da fotografia documental, das posturas ousadas de um fotojornalismo sem medo, mas também da sensibilidade tão presente e necessária na Fotografia-de-rua. Mas talvez a coleção de cenas que Ana Claudia nos apresenta não seja apenas uma diálética diretamente com seus protagonistas ou mesmo com um cada vez mais abstrato poder público, talvez seja mesmo um convite para nós expectadores, já cúmplices, para a reflexão e o debate, sobre qual a nossa parcela nesse conceito, nesse contexto, nesse texto.

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Sobre o Autor

Tchello d'Barros

Tchello d'Barros

Escritor e Curador de Artes Visuais. Realiza editorias independentes e curadorias em diversas instituições culturais.

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