Roncos e roncadores

by Claudia G. R. Valle | 07/01/2018 05:54

Eram dois colegas muito amigos que foram a um congresso e resolveram dividir o quarto de hotel. Um deles morava numa cidade relativamente perto e, no meio do congresso, precisou ir a casa resolver um assunto, que disse ser urgente. Reza a lenda que o tal assunto urgente seria dormir, porque o outro roncava tanto que não o deixava pegar no sono. Se a história procede ou não, nunca se soube, mas o fato é que o primeiro se queixou dos roncos do outro desde o primeiro dia, melhor dizendo, desde a primeira noite em claro.

Fazer o quê? Quem ronca sabe que incomoda, e na maioria dos casos sente-se culpado por isso, porém não consegue evitar. Certo que há métodos e tratamentos, e casos graves precisam ser monitorados, embora a eficácia de muitas das soluções propostas seja discutível. Já prestaram atenção nos anúncios de artefatos que prometem acabar com o ronco? Guardam bastante semelhança com a publicidade de objetos para evitar joanetes e de tratamentos contra a calvície. Deve existir muita gente disposta a gastar seu dinheirinho nessas tentativas.

Faz tempo assisti à entrevista de um índio, índio de verdade, que descreveu alguns costumes de seu povo, e deu vários conselhos. A única memória que me ficou dessa entrevista foi o método que o índio descreveu para fazer uma pessoa parar de roncar. Consistia em dar, com o lado da mão, uma leve pancada no osso do nariz do roncador, com cuidado, para que o barulhento não acordasse. Testei o ensinamento na primeira oportunidade. Não é que funcionou? Por dois minutos houve silêncio absoluto; contudo, depois desse prazo, era preciso dar uma nova pancadinha, para ter direito a mais dois minutos de sossego. Permanecer acordado, acertando o nariz do roncador, é trocar seis por meia dúzia. Se alguém encontrar esse índio por aí, peço que se vingue por mim.

A palavra “roncar” é uma escolha muito feliz da língua portuguesa, porque remete ao som que o roncador faz quando está na ativa. Muito parecida com o francês ronfler e igual ao espanhol roncar. Mas, para os americanos a palavra é snore, e para os alemães é schnarchen. Há piores: os bósnios dizem da hrva e os turcos horlamak. Gente complicada! No entanto, podem ter certeza, sejam quais forem os termos usados para nomear o rugido do ronco, a vizinhança dos roncadores tem as mesmas queixas, e reconhece o som de longe. O ronco não tem fronteiras. Não raro atravessa paredes, literalmente.

Tenho uma amiga que, pelas artimanhas do destino, tem sido vítima constante de roncadores. Contava que um deles admitiu o ronco, mas, por maldosa represália, afirmou que ela roncava tão mais alto do que ele, que o obrigava a permanecer noites em claro. Acabou a relação. Segundo minha amiga, ronco ainda dá para desculpar, vingança já é outra história.

O roncador pode ser um injustiçado, mas ninguém se importa. Os sentimentos que provoca vão da raiva ao desespero. O ruidoso acorda lépido e fagueiro, e o outro atravessa o dia se arrastando de cansaço, na esperança de que, na noite seguinte, a exaustão vença o barulho. Quem já passou por isso, sabe do que estou falando.

Comentários

Curtir isso:

Source URL: http://cronicascariocas.com/colunas/cronicas/roncos-e-roncadores/