Crônicas

Se não me memória a falha…

Marcio Paschoal
Escrito por Marcio Paschoal

Minha memória não anda grande coisa.  De uns tempos para cá, digamos duas semanas, não me lembro bem, tenho esquecido mais do que o razoável.  Tipo, quando resolvo dar dicas para ler o tal livro, daquele escritor mineiro, que fez sucesso com…casado com aquela atriz, daquela novela das oito…que foi caso daquela cantora tal…deixa pra lá.

E vida que segue, com boa, má ou nenhuma lembrança. Como dizia o sonho: o Lennon acabou. Minha memória é aquela que sempre me deixa mentir. Pelo menos isso.

Outro dia me peguei vendo um filme na tevê que, passados mais de vinte minutos, descobri já ter visto. Meu Deus! Cada mania com seu louco e cada galho com seu macaco, ou o ditado que o valha.

Gingobiloga, decretou uma amiga. E logo lembrei de que peitos foram feitos para guardarem os amigos do lado esquerdo. Será isso?

Numa noite de autógrafos, coletânea de poetas, reconheci o nome de um velho amigo: Célio Pina. Fui procurá-lo, mas suas feições me eram completamente estranhas. Teria envelhecido tão mal assim?  Logo, o estalo, não era Célio o velho amigo, e sim Sérgio Pina. Claro. Perguntei em seguida, você tem algum irmão ou parente com nome de Sérgio? Ele gentilmente me disse que não, fazendo cara de escritor que vê um maluco na fila de autógrafos chegando para puxar conversa. Novo estalo: não era Pina, cacete, era Spina. Achei melhor não perguntar mais nada.

Veio-me à mente (ou o que dela restou) “Águas de maio”, de Jobim:… é caminho, é pau, é o fim da pedra. Ou quase isso. Não foi ele quem disse que brasileiro não faz sucesso para aquele a quem perdoa? Acho que foi…

Difícil de acreditar, mas não faz tanto tempo assim, pediram meu número do celular. Deu branco. Também, pudera, não costumo ligar muito para mim mesmo. Faz sentido. Há, ao menos, o consolo de que pessoas atarefadas não se prendem a detalhes. Pronto, me lembrei do Roberto e do Erasmo…”não, não adianta nem tentar me esquecer…”, logo eu que já esqueci até sobre o que escrevia.

Letras de música, então, uma calamidade. Outro dia, num show de uma conhecida cantora, na releitura de um velho clássico, tentei acompanhá-la bem baixinho, mas a cada verso uma furada. Só no refrão conseguia alguma coisa parecida com o que ela cantava. Terrível.

Para os que ainda não entraram nos anos e acham graça deste que – desmemoriado, escreve – preparem a cama, pois, vocês me serão amanhã!… como preconizava aquele anúncio de uma vodca, qual mesmo o  nome? Era vodca ou uísque? Enfim, álcool.

Para não dizer que não falei de flores, apud meu amigo Geraldo Azevedo, acho que era o Vandré… não importa, há o lado positivo de que aquele que falta com a memória e ainda consegue concatenar as idéias é por causa do acúmulo de informações. Está vendo? Sou bem informado até demais.

Relendo “Assim se calou Zaratrusta”, de Freud, (ou seria Herman Hesse?) pude concluir que não estou mais tão sozinho e que ainda permaneço ameaçadoramente ateu, já que só acredito naquilo que me lembro bem. E isso já faz parte do meu passado remoto. Remoto controle, de Mariana Calcanhoto. Viu como ainda estou bom nas associações? Nem tudo está perdido. Nem o paraíso.

E como cantava Hermeto: “… andar com falhas eu vou. que a falha não costuma dar fé”. Ou algo parecido.

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Sobre o Autor

Marcio Paschoal

Marcio Paschoal

Escritor, economista (nem ele mesmo sabe por quê), letrista (com Ruy Maurity), crítico e pesquisador musical (autor da biografia João do Vale), é carioca, escreve em sites, jornais e publicou romances, contos, crônicas e ensaios.

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