Crônicas

Sinestesias literárias

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Meus pés pareciam cheios de furos, cinco, ao certo, quando os coloquei sob o piso do banheiro ao sair do banho. Um piso atoalhado azul, a combinar com a tonalidade fosca do esmalte que ornava meus queridos e tão exaustos pés. Engraçado constatar o fato de que, na vida, nem sempre o mais aparente é o que brilha. O fosco tem sua beleza intrínseca, como os “rabiscos” reveladores de Kandinsky e Klee se tornam arte ao estimular o apreciador de signos tão insensatos. Assisti Chico Xavier após um dia de incansáveis e, ao mesmo tempo, estonteantes movimentações; era o brilho, em uma forma cremosa e glamurosa, suavemente apimentada e salpicada de indeléveis tons de alegria. Eis que vem a calmaria de uma catarse psicografada na tela do cinema, uma sessão medíocre para uma noite de sexta-feira, repleta de sinestesias aromáticas. É a vez do fosco, sereno no calar soluçado das lágrimas a desenhar sombras no tecido claro da blusa que vestia. A paz de uma vida sofrida de quem nunca a sentira.

O brilho, às vezes, nada é para alguém que não possa visualizá-lo. Sua sensação máxima pode ser a de algo plano e escorregadio para quem o toca. O fosco transfigura-se num aspecto diverso, “tatilmente” seguro e incentivador. Assim foi Francisco, fosco, seguro para os que o tatearam com suas energias mais esperançosas, e incentivador na busca por respostas em princípio perdidas. Pois daí vem o brilho.

Ao escrever estas analogias – e sentir o quanto soa estranho comparar esmaltes a médiuns e grandes artistas – o azul nada discreto, porém tímido, também presente nas unhas das mãos me rouba os pensamentos e a força de escrever. Energia alguma me fora tão alucinante.

Deve ser o sono; já passa da meia-noite.

E eu que pensara em falar sobre como eu reaprendera a gostar de escrever à caneta, num bloco de anotações sem qualquer registro; como há algum tempo me tornara provinciana digitando os pensamentos à mercê dos comandos práticos de um computador. Era das tecnologias, uma página de Word como província. Bia Mies e Manuel Bandeira (BM/MB), dois cronistas de província…

Fica para uma outra crônica.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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