Crônicas

Siqueira Campos

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

A rua Siqueira Campos em Copacabana é um resumo do mundo; tem de tudo. Desde farmácias, clínicas de exames médicos, hospitais, supermercados, floricultura, restaurantes, galeria e comércios em geral, residências, bancos à equipamentos urbanos e  metrô e pontos de ônibus e praça e muita – e muita mesmo! – gente. Gente de todo tipo, de todas as estaturas, condições sociais, senso de humor, semblantes, tipos de sapatos… moradores de rua e transeuntes. Tem sol a pino e sombra. E moços pendurados em escadas num trecho apertado de calçada consertando letreiro. E faixas de pedestres, sempre do lado direito, quando se vem da praia para dentro do bairro.
Numa sexta-feira qualquer, Andréa se viu em meio a essa loucura, com três pedidos de exames encaminhados por um doutor. Sem conhecer muito Copacabana – mudara-se para o bairro há alguns dias, vinda de outra cidade – se viu rodopiando entre os números ímpares e pares do logradouro, subindo e descendo escadas e elevadores. Tentou o GPS do celular para se localizar e a bateria estava quase zerada; optou pelo bom e velho perguntar aos passantes. Nesse ínterim, recebeu panfletos vários, que foram sendo depositados no interior de uma sacola de plástico que carregava consigo. Conclusão: ao achar as clínicas – teriam de ser três distintas, para os tais exames – não sabia mais o que era guia do plano de saúde e o que era propaganda; uma infinidade de papéis amontoara-se ali no plástico em suas mãos. Depois de alguma ginástica e muita vergonha, uma das clínicas diz não aceitar um detalhe impresso – melhor dizendo, NÃO impresso – na carteira de seu plano e a recepcionista, gentilmente, lhe tira do reduto Siqueira Campos, informando o endereço de uma clínica concorrente na Xavier da Silveira. Era uma tarde linda de outono, dessas com céu sem nuvens e ventinho gelado. O movimento “a-ritmado” das pernas e o batuque apressado dos semáforos e buzinas hipnotiza Andréa, que se rende a um suco desintoxicante e um salgado fit – essa modinha sem glúten ou lactose. E se deixa levar pela atmosfera citadina, essa coisa meio metrópole-meio espaço inventivo, entre deslumbramento turístico e caos. Resolve ligar para a tal clínica ao invés de ir pessoalmente. A bateria do seu celular finalmente se foi. “Ligo na segunda-feira”, pensa.

Deixa-se levar e vai percebendo toda a vida e lojinhas ao redor. Compra pulseira e um par de brincos; banana na feirinha, uma canga e um saco de 2kg de tapioca; mudas de suculentas, remédio para dor de cabeça, shampoo, condicionador e um creme para os pés, um vestido, um cabo super longo para carregar o celular e um ingresso para uma peça teatral à noite. Munida de todos os seus novos pertences copacabanenses se encaminha até a praia onde tira os sapatos de saltinho, arregaça as mangas da camisa social, tira a canga de uma das novas sacolas e se senta em frente ao mar. O barulho das ondas… o sol amigo de outono… rapazes sem camisa jogando vôlei…

3h mais tarde, o sol se pondo, Andréa abre os olhos um pouco atordoada; não se dera conta de que tinha adormecido. Confere ao redor e percebe que, por sorte, todas as suas compras estão ali.

Na volta, vai subindo a Siqueira Campos, passa no banco para tirar um dinheirinho, em uma loja de bolos para levar uma fatia para acompanhar o café que faria em casa e então faz um último pit-stop para comer uma fatia de pizza. Vai subindo a passos mais lentos à medida que as calçadas estão mais cheias de gente.

Pega um ônibus porque já não quer andar tanto até o seu endereço.
Em casa conecta o celular à fonte com o novo fio, liga a TV e o fogo para ferver a água. Arruma as suculentas na prateleira próximas à janela, toma um banho morno usando o shampoo e o condicionador recém adquiridos, veste o vestido e completa o visual com as bijus e um pouco de maquiagem. Toma o café com bolo de laranja e calda de chocolate. Está feliz e não pára de pensar na rua que tem tudo o que alguém precisa para viver.

Assiste noticiário, novela que segue, come duas bananas e faz tapioca, para não sentir fome. Passa o creme nos pés, calça o mesmo par de sapatos de saltos baixos e tranca a sua quitinet. Resolve ir de metrô, mesmo sendo uma única estação depois.

No vagão um homem moreno, alto de pele bronzeada lhe sorri. Tem dentes perfeitos. Encabulada, devolve o sorriso, mas tímido. Salta na plataforma, vai subindo as escadas rolantes, vislumbra a rua quando um adolescente de chinelos e blusão rasgado lhe dá um encontrão e rouba a sua bolsa. Um homem o segue correndo logo atrás. Em pânico, Andréa sai da escada e fica em pé, imóvel, olhos arregalados a olhar para o moleque que já está longe, subindo a Ladeira dos Tabajaras. Então, como que num conto de fadas, o moreno alto está descendo a ladeira e traz consigo a sua bolsa.

Andréa é um misto de sensações e não consegue dizer nada além de um muito obrigada e sorrir. Ele, cujo nome é Rodrigo diz que ela precisa ficar mais ligada, “isso é Copacabana”. Ela agradece novamente, seus braços e pernas estão bambos, ele pergunta se pode acompanhá-la até seu destino e, coincidentemente estão ambos a caminho do Teatro.

Sentada na plateia, olha de soslaio para Rodrigo que está duas cadeiras à sua direita, lembrando de toda a sua tarde, sua alegria, seu vestido, sua pulseira, par de brincos e os grãozinhos de areia ainda colados ao sapato, suas suculentas, as buzinas em seu batuque apressado com os semáforos e pernas várias, o salgado fit, bolo e pizza, os exames, os panfletos, o assalto. Aplausos, agradecimentos, Rodrigo que segura levemente sua mão na porta do foyer, “Quer tomar um chopp comigo?”. Descem a rampa da galeria, atravessam a rua e se sentam em um barzinho ali mesmo.

Ali, na Siqueira Campos, Andréa pode entender e resumir o mundo.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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