Crônicas

Só não perguntem a Pítia quem é o “capi di tutti capi”!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Sócrates, principalmente esse, o filósofo do “a única coisa que sei é que nada sei”, viveu numa época em que os gregos, os atenienses em destaque, acreditavam que o Destino – vou grafar com maiúscula – era o senhor de todas as vocações e de todas as vidas. E não adiantava fugir dele! O que tinha que ser, mesmo naquela época, tinha muito força. Tudo estava escrito e com firma reconhecida. E duvidar ninguém havia de.

Segundo ainda a história – quase que escrevia “lenda” – ninguém fazia nada sem consultar Pítia, uma velha e experiente que falava em nome do Deus lá deles, escolhida entre as mulheres da região. E se eu disse “velha”, é porque essa mesma lenda – quase que escrevo “história” – conta que antes eram mulheres jovens e virgens. Mas, talvez pelo fato de o sujeito emputecido por não ter interpretado bem a profecia do Oráculo e comido a força a virgem que ocupava tão respeitado cargo, resolveram então colocar um “canhão” para servir de “cavalo” dos deuses.

A consulta era a mais simples: o crente perguntava a respeito do seu destino, o que deveria fazer para evitar uma porrada pela frente, mesmo sabendo-a inevitável, de onde vinha e para onde iria e outras curiosidades que nunca deixaram este escriba curioso, e ela, Pítia, a sacerdotisa, depois de uma “fumaçada” que saía do templo em que estava, dava ao “boneco do destino” “régua e compasso”.

Uma pausa no começo do parágrafo. Pois bem. Se eu disser aqui para os meus dois leitores que inicialmente este escriba queria falar apenas a respeito da crença no Destino (maiúscula, por favor, 1berto, maiúscula) em nossa época, podem acreditar, era somente isso que ele estava querendo. Acontece, porém, que o assunto é tão divertido que deixei os dedos livres e leves e soltos dançando nas teclas desse frio e com puta dor, enquanto a cabeça, essa a pensante, seguia no embalo dos dedos e também brincava. E segue.

Pois é. Mas não pense o meu leitor, esse dos meus dois o mais curioso, que a coisa era tão fácil não. E que ninguém viesse com essa de perguntar, por exemplo, quem seria o primeiro a comer a Helena de Tróia ou querer somente a cabeça de João Batista. Perguntas indiscretas, sacanas, Pítia não respondia. Era como se hoje, num outro exemplo, alguém quisesse saber quem é nosso ladrão-mor na quadrilha petista. Tudo bem. Todos sabem. Existiam algumas dificuldades. Algumas respostas eram verdadeiras charadas e muitas delas necessitavam de interpretação posterior.

Mas as respostas de Pítia, apesar de difíceis, embora ambíguas e obscuras, não eram pífias. Ah, isso não! Difíceis de interpretações podiam ser. Tanto que um colégio de sacerdotes, assistido por ministros cultos, o que hoje infelizmente não temos por aqui, levavam semanas para decifrar. Um exemplo? Quem é o ex-presidente que passou todo o seu mandato, ou melhor, seus mandatos sem “ver e ouvir” e dizendo para os que quisesse vê-lo e ouvi-lo que não “sabia de nada” do que ocorria no seu Governo? Ninguém fazia nada sem perguntar a Pítia. Assim como hoje acontece na quadrilha que assalta – e rouba e furte e corrompe – o Congresso Nacional. Tudo precisa – ou precisava – do aval do “capi di tutti capi”.

Segundo ainda a história e primeiro o meu pai Heráclito de Almeida que me falou um dia de outro Heráclito, filósofo e amigo do saber (pode ser vice e versa), foi o dito cujo quem teve a coragem de dizer que o Oráculo, apesar de acertar muitas, assim como a Mãe Dinah que depois de milhares de chutes acertou um fatal no avião dos Mamonas Assassinas, também errava: ele “não fala, nem esconde, mas indica (apenas) através de sinais o conhecimento”.

Se foi claro? Demais. Botou o dedo no rabo da burra, como diria o meu irmão Dapenha! O Oráculo apenas “indicava através de sinais”. Se o crente quisesse seguir o proferido que seguisse, mas que também assumisse toda a responsabilidade pelo ato. Se conseguisse sucesso tudo bem, seria creditado ao Oráculo; se quebrasse a cara, recebesse um chute do Destino nos países baixos, o Oráculo teria sido mal interpretado.

Mas eu queria era mesmo dizer que se o Destino existe, assim como muitos, apesar da relutância acreditam em diabo e feiticeiras, deve existir lá pras negas dele. Para este escriba, mesmo que não tivesse recebido de Heráclito de Almeida e Dona Chiquinha régua e compasso, o Destino não passa de um cão danado, vacinado e vermifugado, estrangulador no pescoço e dividindo com o meu cachorro o canil que mandei fazer no fundo do quintal!

Até quinta, Isabelas!

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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