Crônicas

Sobre estrelas e trivialidades

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Faça chuva, sol ou lua, haja crise ou não, os bares da Voluntários e Nelson Mandella sempre estão cheios. Em um sábado de madrugada, se um não se decide sobre o que comer e as cozinhas fecham em efeito dominó, você sempre tem a opção de um hot dog a R$0,99. A crise passa longe de uma cerveja barata – e bem gelada -, e um engana estômago de fim de night. “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Essa tríade tem de ser um direito acessível a todos, pois um alimenta o corpo, o outro a alma e o último, a vida.

Vida que ontem se findou para uma grande estrela.

No auge da minha carreira de atriz – agora em pausa -, entre palcos, estúdios, aulas de canto, dança, laudas, ensaios, apresentações e umas pontas e testes até na TV Globo, um dia fui me sentar com minha mãe no gramado de um parque em Nova Friburgo; lá encontrei meu melhor amigo, que me disse nunca ter visto meu olhar brilhar tanto, que eu estava radiante. Era a tal da felicidade. Dias depois, ele me deu “Cartas para uma jovem atriz”, que permaneceu na minha cabeceira por muito tempo. Muita coisa se passou entre essa cena, a minha vida e a da Marília Pêra; passei a gostar do al di là dos holofotes, da criação dos cenários e, principalmente, do espaço teatral por excelência. Eu que fiz alguns musicais, sempre quis prestigiá-la em uma peça, o que, infelizmente, não foi e não será mais possível. Esse cometa do teatro, televisão e cinema brasileiros, atriz, cantora, bailarina, diretora, produtora e coreógrafa, deixando mais de 50 peças, quase 30 filmes e cerca de 40 novelas, minisséries e programas de televisão, agora brilha em palcos celestiais. Nos meus estudos de astronomia na época da escola, aprendi que o brilho das estrelas que vemos no céu está tão distante de nós que, quando chega, elas mesmas já morreram. Marília é como as estrelas: sua trajetória artística continua presente em nossos dias, seja em reprises televisivas, quando assistimos filmes em que participou ou mesmo o repertório de alguns de seus musicais. Sempre veremos sua luz. A versátil, elegante e extremamente talentosa mulher foi-se; o bom do artista é que ele permanece sempre no rastro de arte deixado, voz, imagem, emoções e tantas expressões. Já dizia Shakespeare “Tratai bem os atores; eles são a crônica e o breve resumo dos tempos.”

À noite, assisti uma peça em Copacabana e o elenco dedicou o espetáculo a nova estrelinha do céu carioca. Marília, minha paixão pelo teatro, a vida dela, o que um artista deixa ao morrer, minha vida. Tudo passa diante dos olhos e sinto cócegas na alma chamadas saudades. Saudades do meu olhar diante dos holofotes, saudades dos inícios de apresentações, da “merda” compartilhada por trás da cortina no terceiro sinal. Das palavras de Marília em minha cabeceira. Bebo uma Coca-Cola e penso no último gim da personagem Darlene ao lado do elenco de “Pé na Cova”.

Faça chuva, sol ou lua, seja em um sábado ou no próximo domingo, haja enterro e muitas novas estrelinhas no céu, os bares da Voluntários e Nelson Mandella sempre estão cheios.

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: