Crônicas

Sonhar Acordado

Anselmo Vasconcellos

No retorno de uma maravilhosa viagem ao Rio Grande do Sul encarei quatro horas de espera no aeroporto de Porto Alegre. Há dois cinemas lá, descobri sorrindo. Entrei para assistir O SEGREDO DE BEETHOVEN com Ed Harris. A primorosa seqüência de abertura nos mostra o som do maestro sendo visualizado, isto mesmo, por uma mulher que viaja em uma carruagem em disparada. Seu destino é o leito de morte do gênio da música, surdo.

Acompanhei, no filme, Beethoven compor a NONA (Sinfonia nº. 9 em Ré menor Op.125) com um aparelho enorme de metal adaptado aos seus ombros em forma de uma grande e alta cola de metal. Pelo tal aparelho ele sente a vibração dos sons que cria e toca mas não pode ouví-los. É fantástica a percepção dele e, vendo-o, encarnado na vigorosa interpretação do Ed Harris, constata que a essência, a característica fundamental, a origem do som, são vibrações. Não é só de som que vive musica, é de vibrações que vive o som. Penso então ao ver o maestro que não escuta mas sente e assim ouve, o quanto existe de pessoas normais que ouvem mas não sentem e sequer escutam. Apenas ouvem aquilo que lhes convém, talvez…

Beethoven, o filme, nos faz compreender  o conceito de Sinestesia, que é a capacidade pela qual uma mensagem veiculada num determinado código incorpora sensações pertencentes a outro.

Através da vibração, de um timbre, podemos perceber a musica em cor, textura, cheiro… unindo outros sentidos que a natureza nos dotou desde os primeiros instantes da vida.

Não é por acaso então que o maestro se dedica a Musicas Abstratas que naquele tempo ninguém entendia.

Desenvolver, aperfeiçoar e expandir nossa percepção audível requer treinamento, atenção e sensibilidade.

Vibração é o som que vc não ouve! Vc sente na pele, no coração! Vibração é uma onda sonora que se propaga cheia de significados.

“Nosso corpo vibra, nossas células vibram, somos constituídos por átomos, que por sua natureza estão sempre vibrando, dançando, circulando, assim como a dança dos elétrons. Tudo flui, tudo muda, tudo está em constante movimento: ciclo cibernético – nada se repete. Cria-se, renova-se. Não nos banhamos no mesmo rio duas vezes.”

No filme Bethovem caminha até um belo bosque, a beira de um lago ele senta e observando a natureza impregna seu corpo de discretos movimentos, vibrações é o que vemos no corpo do ator Ed Harris e o que ouvimos, na trilha magnífica, é o som que o maestro está sentindo, compondo a música, que transcende a matéria.

Nós, espectadores do filme, liberamos emoções ao absorver os sons, ao perceber o que está no olhar do ator.

“Diferentes sons vibram em diferentes partes do corpo e afetam os nossos vários chacras. O mais básico pode ser trabalhado com vogais do tipo o som de ‘Aaa’, que vibra mais no peito – o quarto chacra ou chacra do coração. O som ‘Ôôô’ ressoa profundamente na barriga, no plexo solar, e ‘Êêê’ na cabeça. Existem diferentes tons e sons para ressonar com os chacras. Estudantes em fonoaudiologia e do próprio som e suas características, comprovam esta existência e a ligação entre o som e o estado psicológico, e até mesmo biológico, em cada ser. Falando genericamente, pode-se dizer que, quanto mais alto o tom, mais alto é o chacra que ele está vibrando.”

Na tela, Bethovem sobe ao palco para reger a orquestra e o coro. É a noite de estréia da NONA SINFONIA. Cumprimenta o publico, vira-se para os músicos e diz baixinho:
“Agora a música nunca mais será a mesma”

Ouvimos e vemos a grandiosidade da obra, qdo entra o coro de vozes (pela primeira vez na história da música é inserido um coral num movimento de uma sinfonia. Pela primeira vez, numa sinfonia, é inserida a voz humana como exaltação dionisíaca da fraternidade universal, com o apelo à aliança entre as artes irmãs: a poesia e a música. O texto cantado é uma adaptação do poema de Schiller “Ode à Alegria”, feita pelo próprio Beethoven) é uma das cenas mais emocionantes que já assisti em minha vida… Ed Harris vibra intensamente  seu Ludwig van Beethoven que sem nada ouvir, sonha acordado.

*Beethoven começou a compor música como nunca antes se houvera ouvido. A partir de Beethovena música nunca mais foi a mesma. As suas composições eram criadas sem a preocupação em respeitar regras que, até então, eram seguidas. Considerado um poeta-músico, foi o primeiro romântico apaixonado pelo lirismo dramático e pela liberdade de expressão. Foi sempre condicionado pelo equilíbrio, pelo amor à natureza e pelos grandes ideais humanitários. Inaugura, portanto, a tradição de compositor livre, que escreve música para si, sem estar vinculado a um príncipe ou a um nobre. Hoje em dia muitos críticos o consideram como o maior compositor do século XIX, a quem se deve a inauguração do período Romântico, enquanto que outros o distinguem como um dos poucos homens que merecem a adjetivarão de “gênio”. Wilkipédia – Biblioteca Livre

** Toda vez que o jovem Bethoven estudava violino, uma pequena aranha descia de sua teia e parava em cima de uma mesa, onde ficava escutando Bethoven tocar. Bethoven se encantava com a presença do inseto, até que um dia, sua mãe ao ver a aranha se assustou e esmagou-a. O jovem Bethoven ficou tão desolado, que parou de tocar violino.

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Sobre o Autor

Anselmo Vasconcellos

Anselmo Vasconcellos

Ator, diretor e dramaturgo.

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