Crônicas

Sonhos: o papel do domingo ao embarcar no trem para as estrelas

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

A folha em branco… o barulho das mensagens que chegam pelo celular… Os carros que passam mais devagar a esta hora da noite.

Nenhum pássaro. Nenhum passo. Nenhum traço.

As pessoas não consultam seus relógios ou celulares para saber se já passa da meia-noite. Nem pensam em fusos horários quando saem para se divertir em um sábado à noite. Nenhuma carruagem vira abóbora e não se perde nenhum sapato de cristal pelas escadas. O vento vem de lugares distantes… talvez das estrelas… em busca do quê?

É domingo para alguns, ainda sábado para outros. Tudo é relativo, não geográfico.

“São 2h da manhã, vejo o Cristo da janela…”. A voz adapta Cazuza enquanto dedilho os acordes do trem para as estrelas no violão, amadoramente amando o corpo em madeira que me faz companhia na inesperadamente fria noite carioca.

“Estranho o teu Cristo, Rio… que olha tão longe, além”. Além onde os meus olhos enxergam como gaivotas vindouras, posteriores saudades dos sonhos que ainda não sonhei.

Virando a esquina com o cemitério, só crê quem alguma vez vislumbrou o estrelado morro Santa Marta, cujas luzezinhas competem com as do céu enquanto “o povo lá embaixo espera na fila do ponto de ônibus”.

Essa é a mágica das favelas. De manhã, tristes com o Rio de tempo fechado.

“Eu vou dar o meu desprezo a você que me ensinou que a tristeza é uma maneira da gente se salvar depois…”

A noite traz seu manto pelas janelas, embarco no trem noturno.

Hei de aprender a tocar violão sem procurar o desenho das cifras! Hei de conhecer a Espanha além de Barcelona e de nadar com peixes em um lago tranquilo! Hei de querer outras coisas e talvez não sonhar com as outras, que fugiram, com o argucioso vento.

No quarto a luz se despiu. “eu vou forrar as paredes…” em tons de azul escuro e luz. Como um trem que segue rumo às tais estrelas.

O vento sopra lá fora. Aqui dentro fazem-se mil primaveras.

A folha já não está mais em branco. Na ponta da lapiseira a saudade esperançosa do próximo domingo.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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