Crônicas

Superstições

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Vem cá, você realmente acredita que, se não colocar aquela sua camiseta cinzenta, surrada e furada, para ir ao estádio de futebol, o seu time vai perder o jogo? Provavelmente não, mas bota assim mesmo…

Quando estreou a camiseta, o seu time venceu a final do campeonato. No ano seguinte você inaugurou a “tradição”, e não é que deu certo?! No terceiro ano o time foi desclassificado e você se perguntou onde tinha errado. Concluiu que a camiseta só funcionava quando você entrava no estádio com o pé direito. O time continua perdendo de lá para cá, mas você não desiste: está convencido de que, se não fossem a camiseta e o pé direito, o seu time já estaria na terceira divisão. Pronto: você arranjou uma personal superstition! Não se amofine, o mundo está cheio de gente supersticiosa. As minhas famosas estatísticas, baseadas em dado nenhum, dizem que poucos escapam.

A origem da maioria das superstições populares é incerta, e algumas simplesmente não têm explicação. Quem inventou, por exemplo, que vassoura atrás de porta espanta visita? O resultado só é garantido se a visita vir a vassoura e conhecer o seu significado. A gente sabe disso, mas em desespero de causa, acaba botando a vassoura assim mesmo, porque junto com a superstição vem a esperança de que alguma coisa mágica venha nos ajudar, ou de que as coisas ruins não nos encontrem. Nada muito diferente do comportamento de nossos mais primitivos ancestrais

É difícil confiar num trevinho de quatro folhas para garantir a boa sorte, mas existem superstições que são inegavelmente úteis. Derramar vinho na mesa traz alegrias? Talvez não, mas pelo menos a dona da casa, que teve a sua linda toalha manchada, se consola achando que foi por uma boa causa. Cocô de pássaro traz dinheiro para quem leva a carimbada? Talvez não, mas conforta a vítima. Passar debaixo de uma escada dá azar? Talvez não, mas evita acidentes, que são uma forma de azar.

Algumas superstições atendem pelo carinhoso nome de “simpatia”. Nas comemorações juninas de antigamente as moçoilas faziam simpatias para arranjar marido. Podia não dar certo, mas tornavam as festas mais divertidas e misteriosas. Simpatias para atrair trabalho, dinheiro e amor continuam populares. E nunca falta gente disposta a vender tais ilusões para os necessitados.

A superstição está disseminada por todo o planeta. Sexta-feira treze é um clássico. Em muitos prédios dos Estados Unidos não existe o décimo terceiro andar, mas, por outro lado, como a superstição não tem compromisso com a lógica, há quem considere treze seu número de sorte. As fontes do mundo estão cheias de moedas porque dizem que dá sorte jogá-las lá. E, por toda a parte, há quem evite gatos pretos por acreditar que eles trazem azar.

Também é popular a crença de que partir um espelho significa sete anos de infortúnio.

Se isso fosse verdade, eu teria que viver mais uns cem anos para pagar a dívida. De certa forma, quebrar espelhos poderia tornar-se um método para alcançar a longevidade.

Posso não acreditar nos espelhos, mas tenho o hábito de bater três vezes na madeira quando algo ruim é mencionado numa conversa. Para evitar que aconteça… Às vezes fico aflita porque procuro madeira em volta e não encontro. Vocês já repararam que em carros, por exemplo, não há madeira alguma?

É ridículo, mas continuo fazendo o toc-toc-toc. Quem puder, que explique.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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