Crônicas

Teoria de dois domingos

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Quando sábado é feriado, não tem graça. As coisas funcionamTeoria dos dois domingos – bia mies como se fossem sábado, sem diferença. Mas quando 1º de Maio cai num sábado, tem-se dois domingos na semana, dois dias em que o comércio resume-se a bancas de jornal e padarias/ lanchonetes.

O meu dia do trabalhador deste ano começou com alguns compromissos marcados na agenda: reposição de aula da faculdade no centro do Rio (visita de terreno) e festa surpresa de uma grande e velha amiga. Para admiração – e conseqüente apreciação – de toda a população carioca, o dia amanheceu ensolarado, com temperatura amigável. Levantei depois do horário previsto; tomei banho, levei algum tempo trocando de roupa e arrumando a bolsa; o visor do celular resumiu meu café da manhã a um pacote de biscoito salgado, estilo clube social, água e uma maçã. O metrô estava com espaçamentos de tempo maiores, esperei por cerca de quinze minutos. Ao entrar no vagão, eis que dois assentos estavam vagos, e acabei por sentar-me ao lado de um simpático senhor de boné – para cobrir o grisalho dos cabelos – e camisa vermelha listrada, com uma caneta presa ao bolso (por que todo homem de mais idade leva sempre uma caneta junto ao peito?). Lia um jornal. Nos primeiros segundos, apenas sentei e observei uma menininha que, de pernas cruzadas sob um dos assentos preferenciais de cor laranja, segurava uma das barras verticais de apoio do interior do metrô e sorria para a máquina fotográfica que a mãe lhe apontava. Estava feliz. Era sua primeira viagem subterrânea. Depois, ao vislumbrar a estação que se aproximava, pude constatar que o senhor, na verdade, era um italiano! Que feliz coincidência! Do ângulo em que estávamos, um em relação ao outro, pude perfeitamente ler a matéria que ele expunha sobre “Il palazzo del Ministro, prossimo al Colliseo, dove habitano dei politici ed attori”. Era oCorriere della Sera, jornal dos mais importantes da Itália, caderno Primo Piano, página 5. Quis perguntar-lhe “Scusi, signore, ma dove ha incontrato questo giornale?” e com isso iniciar uma pequena prosa “No, non sono italiana, peccato, non?! Ma parlo italiano, ed amo il tuo paese. Ma, come si chiama? Di dove è?” Como fizera uma vez com o dono de um quiosque na praia de Copacabana. Mas a simpática presença do conterrâneo de meus ancestrais bastou-me. E isso, adicionado ao clima da cidade e ao encontro de velhos amigos horas depois me fez descer na estação Presidente Vargas sozinha e feliz da vida.

Atravessei a citada grande avenida, rumei pela Av. Passos até o Beco do Tesouro, em frente às casas Franklin. O local a ser visitado é atualmente um estacionamento enorme (cerca de 2.800m²) no qual projetaremos uma vila.

É totalmente estranho andar por essa malha urbana normalmente piena di gente, tão deserta. Encontrei o grupo de aspirantes a arquitetos voltando de uma pesquisa do entorno e a professora quis parar na lanchonete com vista transversal ao complexo da Tishman Speyer-Método, no antigo terreno da Faculdade de Letras da UFRJ, para tomar um café. Eu e um colega a acompanhamos, e ela fez questão de pagar. Líquido-instrumento de trabalho num copo de plástico, mais uns giros pelas ruas adjacentes. Nos deflagram, pois, o Real Gabinete Portuguez de Leitura e a parte traseira do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, também da UFRJ. Uma pequena praça, desleixo dos órgãos públicos materializado na imagem dos moradores de rua, uma escultura moderna de cor amarela, pombos, um edifício residencial, Ventura Corporate Towers em fase de acabamentos, a terrível fachada posterior do Teatro João Caetano. Isso é arquitetura. Isso é literatura. Isso é arte. As ideias me vinham como o barulho do atrito da aceleração do metrô com os trilhos. E saco a máquina fotográfica para fazer alguns registros. No meio de toda a pompa do estilo Manuelino da entrada do Gabinete, uma das estátuas se destaca. Seus olhos foram entalhados de formas distintas. Um deles pisca para mim. Será miragem? Uso o zoom da câmera para ter certeza e… não pode ser! Mas que arte esplêndida! Até ele acha que meu dia será meravilgioso.

Fim da aula. Alguns vão de carro com a professora até Botafogo, Humaitá, Gávea. Outros, usam a bicicleta para cruzar o Aterro em direção à Ipanema. Eu, por obra de um destinado dia feliz, consigo carona para atravessar a ponte.

Encontro os amigos, rumamos para o churrasco surpresa – fato comprobatório de minha analogia dos dois domingos, se levarmos em conta propagandas de cerveja em que os churrascos com os amigos sempre acontecem aos domingos. Muito coração, cervejinha, coca-cola e dois pratos de doce. Fim da festa, discussões sobre modos de ser de homens e mulheres (os belos, os bons de papo, quem namora, quem “pega geral”). Já são mais de 19h.

Ar refrescante de início de outono, jaqueta jeans e casa do namorado. Banana, Fanta Uva e empadinhas de frango. Televisão, KibeLoko e estudos. Noite boa, sem preocupação com a hora de levantar. E poder dar boa noite pessoalmente a quem se ama. E saber que, quando acordar novamente, ainda será domingo.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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