Crônicas

Tetê Espíndola cantando o amor de Chico Buarque

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Um dia, lá pela metade dos nos 80, se essa memória um tanto sacana não me pregar mais uma das suas, num tempo em que ela era ainda uma paraibana e só paraibana que nunca sonhou em ser baiana ou carioca, escrevi que “não acreditava” que Elba Ramalho pudesse fazer o sucesso que – negar ninguém há de – com muita luta conquistou. Mesmo não sendo réu, confesso.

Mas, por outro lado, esse para que ninguém se arvore a dizer que meti a minha colher onde não fui chamado e peguei o prato vazio, o bom Zé Neumannne Pinto, aquele mesmo cara de Shaolin (que Deus o tenha) e ex- comentarista da TV Record e bom escritor também sifu: “Nunca acreditei em Elba Ramalho”, Disse e disse bem. Pois naqueles tempos somente um leigo em carne e osso e ouvidos acreditaria naquela voz de gralha com problema de garganta. Pausa. Tudo bem. Anda está em fase de tratamento.

Pois bem. Hoje, dentro do meu carro a 100 km por hora ou quase isso, sem o meu amor, ouvi mais uma vez e outra e outras vezes a Tetê Espíndola cantando “O Meu Amor” que na verdade não é dela, mas do Chico Buarque. E aí? Aí é que a gente vê que a “Gralha de Conceição de Piancó” está a quilômetros de distância de ser uma cantora com a qualidade de uma Tetê Espíndola. É o estilo? Tudo bem. Mas o estilo da mato-grossense é mais assimilável – muito mais – pelos bons ouvidos. E a voz? Sem comparação.

Quem ouviu Terezinha Maria Miranda Espíndola (seu nome de batismo) com a sua voz agudíssima capaz de quebrar copos e vidraças cantando no Festival d Globo, em 1985, a fraca e chata e chatíssima – não há como negar – “Escrito nas Estrelas” não imagina a suavidade e doçura que a voz dessa artista empresta a essa composição do Chico Buarque, nosso maior compositor vivo, mas capaz também de fazer besteira como “Morena de Angola”, uma das piores de sua lavra, Se fiquei boquiaberto? Fiquei. Boquiaberto e de abertos ouvidos.

Os meus dois leitores neste privilegiado espaço, assim como no Eu Plural (humbertodealmeida.com.br), esse um espaço privilegiado meu, que tem o mesmo bom gosto (sic) deste escriba, e que apesar de confessar esse bom gosto às vezes também têm uma recaída mandando o bom gosto a putaquelosparis e escutando até a Alcione, se não ouviram esse Chico cantado pela Tetê Espíndola corram. Não sabem o que estão perdendo.

Ouvi-a (Tetê cantando o “amor” de Chico) há pouco mais uma vez. Os agudos estão muito longe daqueles colocados na canção do Arnaldo Black e Carlos Rennó (Escrito nas Estrelas). Na “Eu Te Amo”, eles soam como uma canção de amor. Pausa. Pergunto-me: e aí 1berto, essa música é ou não um canção de amor?

As suas – dela – oscilações nos agudos super educados parecem nos levar aquele estado de graça de quem está a cochilar em uma rede na varanda. Afinal, como descrever a voz usada, principalmente nessa canção, como se fosse a flauta de um Copinha ou Altamiro Carrilho? Nada de descrição. Só ouvindo.

Dizer mais o quê? Só dizer que vou ouvir outras vezes e assim ouvindo não vou me cansar nunca! Mas quero lembrar aos meus dois leitores que fiquem atentos para o suspirar da Tetê cheio de tesão que abre a canção e antecede cada estrofe.

Ai Tetê, me mata com a tua Espíndola

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: