Crônicas

Tia Zulmira, Sérgio Porto e eu, num festival de Besteira que assola o país

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Estaria mentindo se no início das mal-traçadas desta semana de Isabelas escrevesse que fui um dos primeiros a ler “O Tia Zulmira e Eu”, no caso, o Stanislaw Ponte Preta, no ano do seu lançamento.  Se a memória não me falha e não me falha mesmo, pois está melhor do que nunca, quase infalível, e por isso mesmo deixando muitos figurões com os cabelos – dele mesmo – em pé quando me dano a falar de suas vidas privadas e públicas, embora muitos embolem o meio-campo e confundam as públicas com privadas, em 1961, ano do seu lançamento, apenas taludinho, acabava de sair dos cueiros. Era impossível.

Tia Zulmira e Eu, o primeiro livro do Stanislaw Ponte Preta, heterônimo – nada de pseudônimo, esse é fácil, qualquer idiota pode ter um –  de Sérgio Marcus Rangel Porto, o primeiro, também, de uma longa série, entraria para a história do humor Verde e Amarelo e nunca mais sairia.  Mas, por motivos óbvios e ululantes, confesso que gosto mais de sua série Febeapá – Festival de Besteira que Assolar o País. O Tia Zulmira,   como tantos outros do patrono do Pasquim, apareceu por acaso. E o estilo papo de bar do Sérgio Porto – não confundir com o Stanislaw Ponte Preta – foi o melhor dos achados entre os muitos que acharia no meu bairro Jaguaribe.

Vocacionado – sempre achei que fosse vocação, afinal, ninguém é perfeito – desde menino para levar a vida sem complicações, pois, de complicado, basta ela, o que me chamou mais a atenção na escrita do Stanislaw Ponte Preta, apelido que como todos sabem, generoso que sempre foi, emprestaria depois ao Oswald de Andrade para o seu, isto é, do Oswald, Serafim Ponte Grande, eram as suas frases feitas. E bem feitas. Sérgio não era um escritor sem Porto seguro para as suas palavras e o seu bom-humor. Suas frases pareciam que há muito estavam ali, todas certinhas, esperando tão-somente que o Sérgio as descobrisse. Muito antes do Ivan Lessa e do Fortuna, o primeiro com o seu antológico Gip! Gip! Nheco! Nheco!  e o segundo com tiradas sensacionais como “Em terra de olho quem tem um cego, errei!”,   mesmo sem saber o que danado viria a ser um Picles, (criativas frases de humor) Sérgio inventou essa arte.  Ah, sem esquecer o seu antecessor, o Barão de Itararé. E, se não inventou, a lapidou.

“Entre as três coisas melhores desta vida, comer está em segundo e dormir em terceiro”.
 Um exemplo perfeito da criatividade de Sérgio.  Mesmo sem a presença de dona reticências, todo reticente, Sérgio mostra o quanto, econômico nas palavras, era capaz de dizer o que muitos, com muitas palavras, dizer nunca conseguem.  Sabia fazer – vivia bem-humorado – um humor sem apelações.  E, com ele, esse humor, marcou sua passagem pela história recente desse país que  um dia pareceu uma piada, mas, infelizmente, continua cheio de gente mau-humorada.

Numa época  em que todo mundo posava de gente honesta  e ainda acreditava que o Maluf tinha jeito, pois, ninguém conhecia o Maluf,  a sua “Ou todos nos locupletemos ou restaure-se a moralidade”, máxima que ainda hoje é o máximo,  virou moda e nunca mais da moda saiu.   Sobre os inimigos, esses sobre os quais nunca teço comentários, pois, tão fúteis, poucas vezes deles falo, costumava dizer que “Certos inimigos são tão mixurucas que encabulam a gente” Uma verdade indiscutível. E, no caso, indescritível.

Mas, como falei no começo destas despretensiosas mal-traçadas, sem querer fazer nem falar de história, pois nunca tive tendência para “Papagaio do Tempo”, foram os seus três volumes do Febeapá  – o primeiro lançado em 1966 -, driblando os nossos cultos censores, entre eles aquele que mandou prender  “um perigoso sujeito chamado Sófocles, autor de um livro subversivo, Édipo Rei, inimigo mordaz da Redentora”, que fizeram com que os brasileiros, os menos inocentes e mais inúteis (para eles), sorrissem das caras sem graça de nossas otoridades (sic) competentes e incompetentes. Saudades do Sérgio Porto.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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