Crônicas

Tinha um gato no meio do caminho…

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Passo horas em casa pescando poesia nos poemas alheios. Tem dia que a pescaria é farta. Outros, como foi o dia de ontem, pesco apenas piabas poéticas. Leio poemas. Pesco a poesia em alguns poucos. Tenho os meus poetas. Esses também não são muitos. A poesia é necessária. Eu preciso dela.

Leio um poema em que a poetisa – “poeta”, como também dizem por aí – ou candidata a vaga, pois sempre existem vagas para os poetas, os verdadeiros, descreve um “gato morto”. Sorrio. Só rio. Difícil fazer um poema sobre um gato morto? Não acho. E digo mais no próximo parágrafo.

A poesia pode estar – sempre esteve – até mesmo na morte. Augusto dos Anjos, o nosso, que o diga. A poesia se encontra em todo lugar. Ela, assim como a música independe do músico para existir, também do poeta não precisa para isso. Existe. Sempre existiu. Está solta no ar. Não tem morada certa no peito desse ou daquele poeta. Ou não. Está em rosas e espinhos. Chegadas e partidas. Pausa. Essas com ou sem lenços. Com choro ou risos. Em gatos. Mortos ou não.

Tenho um amigo que só gosta de poemas que “fazem sonhar”. O poema, pAra ele, sem esse S (leia-se sem “exceção”), tem que ter rima. Tem que lhe fazer olhar o passado, acordar no presente e sonhar com o futuro. Mais: tem que ser curtos! Diretos e rápidos como uma flecha de Robin Hood acertando uma poética maça na cabeça do pensamento. Nada de esforço para que a poesia entre pelas janelas do coração.

Poemas sem lirismo são chatos. Ele diz. A musicalidade. Ah, essa sempre procura nos poemas que escuta! Explico. Não é de ler poemas. Escutar, sim.  Sempre assim. Os seus – dele – ouvidos estão acostumados à música. E. para esses, os ouvidos deles, a música é mais importante que a forma.

Metáforas? Nem a palavra é poética. Feia. Ele diz. Poema com metáforas? Sorri. Nenhuma importância. Prefere um poema com poesia. Apenas. Essa que ele gosta. Essa (repetição, sim) que entra pelos seus – dele – ouvidos como a música de um Mozart que ouviu falar um dia mas dele nada conhece.

Um gato morto…

Ele sorri. Acha que não pode existir poesia num gato morto. Fazer um poema? Sabe que o poema é diferente da poesia. Embora diga não existir tanta diferença assim. Poiesis! Essa não mora apenas no poema. Mas não aceita poema que não lambuze de música os seus ouvidos logo nos primeiros versos. Para ele, nascido no sertão parahybano e criado na “cidade grande”, “poeta de verdade” é a “Cascavel do Repente. o maior dos repentistas, Pinto de Monteiro. Esse que segundo o próprio, como ele, o “poeta auditivo gosta de repetir, sabe “tirar de onde não tem e botar onde não cabe”.

Poeta é isso!

O seu gosto é muito diferente do que um dia “proclamou” o poeta de Itabira, famosa  cidade cantada em versos,  com “noventa por cento de ferro nas calçadas/ Oitenta por cento nas almas”.  Ele gosta mesmo é daquele poeta que “verseja por dor-de-cotovelo, falta dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo”!

Tinha uma pedra no meio do Caminho. Ou seria um gato? Ele sorri. Na vida o menino sertanejo teve que tirar muitas pedras do caminho. Mas se fosse apenas uma, mais que um poeta somente auditivo (sic) ele seria. Poeta verdadeiro. Poeta de cabeça tronco e membros. Poeta capaz de tirar qualquer gato poético ou não do seu caminho.

Tinha um Gato no meio do caminho…

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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