Crônicas

Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor

Luciano Fortunato
Escrito por Luciano Fortunato

Essa é sobre a dor de ser homem. Ser homem dói. A nível de dor e a nível de homem e a nível de a nível de. Em todos os níveis é uma dor. É o homem que inventaram pra gente ser. O homem do tipo de um soldado em um filme de guerra, que diz para seu companheiro – ambos na iminência da morte – numa batalha: “esse é o melhor emprego que eu já tive”. Viver é lutar. Isso não é muito bom. Isso é para homens e também mulheres. Só que… só que agora eu falo apenas do homem.

Estava eu acompanhando minha filha em Barra do Piraí, cidade vizinha de onde moramos e aonde vamos sempre comprar bugigangas de toda sorte. Um homem bem rapaz me faz um sinal pedindo cigarro. Eu sempre dou cigarro a quem quer que me peça. Desta vez não. O rapaz insistiu, desta vez pedindo em voz que eu podia ouvir. Eu olhei para ele, bem novo, e pensei na coisa feia que é um rapaz daquela idade, com saúde, pedido cigarro numa praça num sábado depois do almoço. Se fosse um velho ou um mendigo eu daria até dois, com prazer. Mas para aquele rapaz não. Eu fingi que não o ouvi pedir. Então ele, meio que ofendido com o meu pouco caso, diz: “Tá surdo? Fica aí fazendo posão…”. Então eu o encarei feio, num olhar de quase xingamento. Ele também encarou e disse alguma coisa que eu ignorei. Ignorei aparentemente, já que na verdade eu lancei na cabeça preocupação. Depois fui andando com minha filha, que saía do lugar onde havia entrado e eu a esperava. Caminhando na calçada, contei o incidente a ela. Amigos íntimos que somos, acabei revelando a ela o meu medo. Sim. Senti medo de uma retaliação do jovem de olhos e aspecto ameaçadores. Há muito tempo eu não sentia medo de um homem. Ou seja, há um relativo tempo. Mas de um homem tão jovem foi inesperado, nesta minha fase “madura”. Pensei no que poderia acontecer. O rapaz poderia me seguir. Se o fizesse, e me cercasse, eu não poderia correr: teria que enfrentá-lo… mesmo fisicamente, se necessário. Isso porque homem não foge. Então eu lutaria com um homem por causa de um cigarro. Não. É claro que não seria o cigarro o problema. Mas é o que diriam. Se houvesse homem morto ou ferido, falariam do absurdo de alguém brigar por um cigarro. Mas não julgariam o evento como surreal. Nada mais é surreal. Nem a guerra é surreal. Numa guerra homens matam homens, pois são todos homens. E homens de verdade. E o que homens de verdade fazem? Eles não fogem a luta. E matam homens por coisa menor que um cigarro. Aliás, matam homens dos quais nem se sabe o rosto. E matar um homem de quem não se sabe o rosto é menos que matar por causa de uma cara feia e a recusa de um cigarro. Numa guerra não se matam homens. Mas sim a ideia que estes representam. A ideia é matar a outra ideia, contrária à nossa ideia. O homem no meio disso tudo é só um detalhe.

Homem tem honra. Uma amiga me contou que seu marido, quando egresso no grupo de paraquedistas, teve muito medo de saltar. Só que o medo da bronca e da humilhação sofrida pelo tenente – acho que é tenente – era muito maior que o medo de morrer num salto, num beijo ao chão da eternidade. Então ele saltava logo, pra evitar o humilhante sermão do oficial. Homem prefere a morte que a humilhação. E neste dias temos refletido como a morte é algo belo na tosca estética de um mundo guiado por homens. Eu duvido. Repito. Eu duvido… que num mundo guiado por mulheres a morte pela honra fosse mais bonita que a vida. A mulher sabe muito melhor da laboriosa arquitetura de se colocar uma vida no mundo. O homem parece estar mais para a honra do que para a vida. E honrar o que? Muitas vezes honra-se ao nada… honra-se a uma ideia tão abstrata que nem teria espaço num mundo onde a vida e a alegria de viver fossem levadas a sério.

Não que eu não queira, que me recuse a lutar. Eu tô dentro. Fazer o que? Luto sim. Numa boa. Não vou correr. E sei que nada é fácil. Temos que enfrentar legiões de dragões por dia. Um leão seria moleza. Pobres leões. O que são eles diante da força que eu e muitos homens temos e fazemos em nossos desígnios. Dragão é um pouco mais difícil. Até porque não existe. Aí está. Lutamos todo dia, muitas vezes, contra inimigos inexistentes, imaginários. E isso também dói. E é sério. Ando muito sério.

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Sobre o Autor

Luciano Fortunato

Luciano Fortunato

Escritor.
"o menino é o pai do homem" (willian wordsworth);
"criar é dar forma ao próprio destino" (albert camus);
"...atire a primeira pedra" (yeshua)...

Ateu Cristão
Não creio em divindades de quaisquer religiões. Mas respeito profundamente quem crê no mundo místico, onde, aliás, vejo muita beleza. E como tenho como meu modelo pessoal o de Cristo, que é o exemplo total de tolerância, compreensão, conciliação, fraternidade, coragem e amor, sou levado, sem qualquer incômodo, a respeitar todas as religiões. Fé e ciência: ambos merecem respeito. Sou um homem curioso, preocupado em entender o ser humano e o mundo, e também a sentir a vida de forma grata... apesar de minhas posições políticas.
Preferência política: Simpatia pela esquerda

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