Crônicas

Todo o meu amor por Dandara

Francci Lunguinho
Escrito por Francci Lunguinho

Foto: Arquivo pessoal

A dor deixou de existir entre a décima ou vigésima paulada. Dandara havia perdido os sentidos num frenesi perturbador. De um lado, o vulto esmaecido de seus algozes; do outro, borboletas alcançavam o seu corpo frágil para conduzi-lo ao esplendor: um lugar onde não se julga e nem se condena ninguém. Mas Dandara sabia disso: ela riu baixinho o riso de quem acabava de pedir aos anjos-borboletas que a carregasse dali depressa porque aqui na terra nada mais haveria de ter.

Dandara desde cedo aprendeu a esquecer. Sempre que queria alguma coisa, logo era obrigada a deixar o desejo de lado para seguir o seu próprio rumo, sem questionar e obediente aos conselhos da d. Francisca, sua mãe. Quando percebeu que a sua alma feminina estava dentro de um corpo de homem procurou esquecer. Pensou em fugir, mas quis o destino que ela lutasse e fosse guerreira. Ainda com o nome de batismo Cleilson, vestiu-se mulher pela primeira vez e o fez escondido, todavia, sentiu-se livre. Uma liberdade que custaria a própria vida anos depois.

Dandara lembrou do passado enquanto apanhava. A cada pancada desferida contra o seu corpo, a mente trazia-lhe lembranças de um menino que viveu o contentamento de uma infância feliz. Usava um cabo de vassoura para criar o microfone imaginário e rebolar feito Gretchen. Eram memórias das outras crianças amigas que não a viam como aberração. Recordações da época em que ainda era possível frequentar a igreja sem os olhares idólatras da razão. Hosana nas Alturas foi a canção que ecoou da sua mente enquanto mais um golpe era projetado contra as suas carnes avermelhadas do sangue que jorrava pelo asfalto. Não tinha mais tempo para entender o porquê de tanta brutalidade. Lembrou dos pais e dos irmãos. Pelas asas das borboletas-anjos a sua alma buscou a paz que jamais teve.

“Hosana, Hosana. Hosana nas Alturas: Salva-nos agora, ó Tu que habitas nas maiores alturas”. Lembrou também do padre explicando em sermão essa liturgia cantada aos domingos. Sentiu saudades desse tempo. A fantasia de ser mulher pareceu mais atraente do que a realidade dela. Ficou encantada com o bater de asas das borboletas, coloridas, coordenadas e silenciosas. O paraíso estava bem próximo agora. Era o seu Éden particular.

Nem o HIV foi mais monstro do que a covardia dos bandidos que a atacaram. Se bebia e se fumava era para esquecer, porque a vida inteira foi levada a não ter vida. Lá de cima, de onde estava e para onde iria, não quis mais espiar o seu corpo em trapos sendo carregado por um carrinho de mão.

Dandara viverá anjo eternamente e cantará suas músicas preferidas na companhia das borboletas. E, para nós, sempre será dos santos.

Dandara dos Santos.

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Sobre o Autor

Francci Lunguinho

Francci Lunguinho

Jornalista, radialista e Editor do portal Crônicas Cariocas.
Amante do jiu-jitsu, corridas de rua e cães. Também é editor da web rádio www.radiomatilha.com.br

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