Crônicas

Trepando e bebendo com moderação

Marcio Paschoal
Escrito por Marcio Paschoal

Os tempos andam bicudos. Neguinho está nascendo demais. Um eficaz controle de natalidade já se faz urgente. Os pobres, esses irascíveis, insistem nessa mania de procriação em série. Pobres e chineses são um perigo.

Pensando nisso, o ex-governador Sergio Cabral declarou, corajosa e irresponsavelmente: “Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginais”.

Rapaz! Isso é que é declaração pensada, ou seja, pensada mal. Meio fascista, não? Defender o controle da natalidade das camadas desfavorecidas, atribuindo-lhes um potencial de criminalidade é o mesmo que avalizar políticas de extermínio e quejandos. Cabral perdeu uma grande oportunidade de pensar calado e refletir antes de falar, ofendendo as mulheres das favelas e de todas as comunidades pobres como produtoras de bandidos pelo ventre. Uma declaração falaciosa e tão violenta quanto discriminatória.

Violência por violência, a moral das vacas também sofreu barbaridades por aqui. Tempo de vacas magras e adulteradas. Fosse na Índia, onde são sagradas, a coisa ia feder. Mas, abaixo da linha equatorial, o tratamento às vacas costuma ser mais profano, quando muito de presépio. E foi uma presepada de dar gosto. Colocaram água oxigenada e soda cáustica no leite. Tem dona-de-casa desentupindo pia com longa vida.

O pior é que, agora, beber leite deixou de ser confiável. Uma tarefa de risco. A Via Láctea virou Crucis. E, ao que tudo indica, ninguém será crucificado.

Cerca de 70% da produção de leite no nosso país vem de pequenos produtores que entregam o leite cru para as cooperativas que monopolizam o mercado com a distribuição e utilização do formato das famosas caixinhas longa vida. Ficamos sabendo que muito pouco ou nada existe de fiscalização desse material. Dos coliformes fecais a esse novo tipo de perigosa adulteração, tudo pode acontecer.

Só agora (depois do leite, literalmente, derramado) a Associação Brasileira do Leite Longa Vida – ABLV – anuncia para 2008 um selo de qualidade. Saudades do tempo em que só colocavam iodo no nosso uisquinho. Estivesse vivo, o saudoso Barão de Itararé não estranharia. Nos anos quarenta, nosso Aparício Torelly candidatou-se a vereador pela cidade do Rio de Janeiro, com o seguinte slogan: “Mais leite, mais água, menos água no leite”. Atual, não lhes parece? O Barão sabia das coisas.

Se a vaca-estátua no banco da praia de Copacabana, vizinha ao poeta Drummond, estivesse lendo jornais em vez de livro, ficaria envergonhada com o que andam fazendo com o leite das criancinhas.

Tempos bicudos e de vacas magras e aturdidas.

Pobres trepem menos e consumidores de leite bebam com moderação. Era só o que lhes faltava.

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Sobre o Autor

Marcio Paschoal

Marcio Paschoal

Escritor, economista (nem ele mesmo sabe por quê), letrista (com Ruy Maurity), crítico e pesquisador musical (autor da biografia João do Vale), é carioca, escreve em sites, jornais e publicou romances, contos, crônicas e ensaios.

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