Trilhas para um ano bom

by Bia Mies | 31/12/2017 09:52

Duas gerações e um buldogue estão sobre a proteção do guarda-sol, que ora os protege dos pingos da chuva. Os homens leem o jornal, enquanto o cão se assusta com o caminhão de gelo, que passa nada discretamente. É 31 de dezembro e cá estou eu, sentada no bistrô da minha rua que nunca havia entrado, sempre guardando o momento para uma ocasião especial. Cont‏rariando os planos aventureiros que eu tinha em mente, sento, peço um cappuccino (lasque-se a intolerância à lactose) e uma tapioca de queijo de cabra, tomates e azeite (não deixemos nos lascar tanto assim), enquanto meu acompanhante saboreia um expresso grande e uma fatia de quiche.

O tempo está tristonho por ser fim. Fim de ano, fim da linha, o fim da última manhã de 2017. Eu, no meu look fashion de praia, acho que vou acabar dando uma volta na Orla de Copacabana, com minha sombrinha de chuva. Nada de viajar para Paraty, pegar um solzinho n’alguma praia de lá, caminhar sobre as pedras e esperar a contagem regressiva para voltar a Cidade Maravilhosa, à luz do primeiro dia do ano. Penso que caminhar por Copa é até muito bom; uma dádiva estar/morar pertinho do mar. Eu vou. Mas daqui a pouco. Por enquanto, recém chegada à mesa, a tapioca absorve toda a minha concentração e ouço banjos, violoncelos, flautas transversas, guitarras e ukulelês em um arranjo hipnótico, as notas saborosas dos ingredientes mais do que bem harmonizados. Eu, em um orgasmo degustativo, o buldogue a me observar e pai e filho a trocarem suas páginas de jornal. No rosto de uma das páginas lê-se Trilhas para um ano bom. A quiche, vizinha de prato, deprime, ficando em segundo ou terceiro plano. Pedimos mais uma tapioca para dividir, já que, de tão ofegante, sou só suspiros.

Enquanto aguardamos a estrela do dia, a família masculina de oito pernas da mesa à frente (entre pés – dois bons vivants no melhor estilo carioca – e patas – viris e também reticentes), se levanta. O senhor veste uma camisa verde, quem sabe já esperançoso pelo ano que vem espiando do outro lado da grade. O filho, no auge de seus trinta e muitos (provável) veste listras. Desejaria um feliz ano novo e faria carinho no carismático cachorro se, ao cruzarem a grade, a tapioca não adentrasse a varanda. E lá se foi tudo ao redor: tapioca, queijo de cabra, tomate cereja e azeite. Hum…. 2017 vai ficar com um gosto muito bom na memória.

Findado o desjejum, um casal estrangeiro ocupa a mesa então vazia, com um carrinho de bebê. Do outro lado da rua um caminhão de lixo traz duas girafas gigantes em sua lateral, com os dizeres Nossa coleta é o bicho. Crianças passeiam com seus pais e avós; transeuntes passam com sacolas e bolsas de supermercado. Muitos vestem roupas de ginástica. Taxistas vão e vem. Motos também. Alguns pingos permanecem, persistentes. Enquanto esperamos uma água tônica para fechar a conta, um homem chega com dois bulldogs franceses. Um dos “monstrinhos” (como ele mesmo os chama), se dirige para o carrinho da criança. O casal hispânico acha graça e o carioca engata em um tête-a-tête em portunhol. Ele encosta na grade e espera com os cães. Nós, em dois, ocupamos uma das duas mesas da varanda. Então sugiro que nos mudemos para dentro, deixando o rapaz com seus pequenos acomodados confortavelmente para o derradeiro café da manhã do ano.

O interior do bistrô é gracioso, em sua metragem diminuta e detalhes aconchegantes (piso, revestimento, mobiliário, toalhas e outros itens decorativos). Eu tomo a água tônica e enveredamos por uma discussão sobre o que é o Quinino. Google confirma ser uma planta. Discutimos o que fazer ao sair dali para, assim como a mensagem do Açúcar União de mesa sugere (mesmo não adoçando mais o meu café – prefiro puro há anos -, ainda gosto de usar as frases feitas dos pacotinhos como horóscopo matinal), viver intensamentente.
Acho que as trilhas para um ano bom talvez não estejam, necessariamente, em planejar as trilhas. Quem sabe o ano bom esteja no viver intensamente, qualquer seja a trilha pela qual decidamos enveredar. Uma viagem de carro à Paraty ou uma caminhada na Orla de Copacabana? Tanto faz, desde que seja intensa.

Um ano de 2018 cheio de vida intensa para todos nós! Até lá!

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