Crônicas

Triste de um jovem que precisa desse tipo de herói

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Até que é inteligente. Ele, o meninão. Vinte e seis anos. Apenas. Maldade nenhuma. Não tem maldade. Um menino que se conforma em viver “pegando” ondas. Nada mais. E vive. Surfa. Surfando em nuvens. Ele vive. Uma de suas manias. O lazer. O único. O mundo pode acabar. Ele está na onda. É o que importa. Importa-lhe. A juventude faz isso. Curtir. Viver na onda. Mora? Quase.

Falando parece que a língua falada por ele é Libra. Gesticula muito. Os gestos acompanham cada palavra. Um ator. Senti numa de suas histórias. Um assalto. Representou bem os assaltantes. Os assaltados também. Ele era um desses últimos. Assim, mais que repente, saindo do assalto, ele, mesmo não sendo réu, confessa: “O meu candidato à presidência da república é o Bolsonaro!”.

Nada digo. Ele insiste: “Sou Bolsonaro de corpo e alma! O meu herói! Ele é o cara!”. Ainda pensei em dizer que se triste é um país que precisa de heróis, mais triste ainda era ver um jovem tão inteligente – o seu gosto nada tem a ver com a sua inteligência – escolher Bolsonaro como herói seu. Isto é, dele. “Jair Bolsonaro é o cara”. Repete. Sorri. Está feliz com a escolha. Infelizmente.

Nada lhe disse sobre o sujeito que um dia disse, bateu no peito e reconheceu a firma: “O erro da ditadura foi torturar e não matar”. Não sabia ele, o jovem, acredito, que a frase saiu da boca suja do seu herói. “Torturar e não matar”. Sem dúvidas. A vanguarda do atraso. É Bolsonaro. Ele não vive. Não pensa. Ocupa um espaço. Apenas. Um espaço que não merece.

Mais nada disse. Nada mais lhe disse. Ouvia. Apenas. De que adiantaria naquele momento somente seu, onda no mar, surfando na imaginação, dizer que esse mesmo ex-croto que ele escolheu para herói, esse do “torturar e não matar” é um sacripanta dos piores? E que achando ainda a merda (sic) que disse pouca atirou ainda mais no ventilador:“Pinochet devia ter matado mais gente!” Na época, ou melhor, na Vejarevista embora suspeitíssima, estava lá.

E a vomitada na deputada federal Maria do Rosário, a baba descendo pelo canto da boca, dizendo que “não a estuprava, porque ela não merecia”? Esse, não lhe disse, foi também o seu herói. Seu candidato à presidência do seu – meu também? Tudo bem. – país. Embora não seja esse o país que desejo. Pode ser o país do futebol. Mas não é com certeza o meu país. Esse? É o Orlando Tejo, cantado pelo meu inesquecível amigo Livardo Alves. Gilvan Chaves? Não o vejo na letra nem na melodia. Essa, sem dúvida, é somente do compositor de “A marcha da cueca”.

Ele, o bom menino, o meninão, amante das ondas e do surf, nenhuma dúvida, é um homem. Por isso, isso que nada tem a ver com outros homens iguais a ele, nem se importou quando o seu herói vivendo uma era de onde nunca conseguiu sair, a pré-histórica, somente preconceito, disse um dia que “Mulher deve ganhar salário menor porque engravida. E justificou a frase, espalhando mais merda (sic) ainda no ventilador: “Quando ela voltar [da licença-maternidade], vai ter mais um mês de férias, ou seja, trabalhou cinco meses em um ano”.

Eu poderia ter contado mais. Falado um pouco mais sobre esse Bolsonaro sacripanta. Mas, apesar de terem cobrado deste escriba algumas palavras a respeito do pulha, preferi silenciar. Ouvir o menino falando do mar, curtindo, feliz a contar as suas aventuras no lugar onde morou por cinco anos, e das ondas que sonha pegar por aqui em dias de sol. Bolsonaro? Tenho cá minhas dúvidas. Ainda. Não sei por quanto tempo ele suportará o “peso” desse herói feito nas coxas dessa alienação juvenil. Uma pena. Muitas penas. Pausa. Um dia quem sabe, uma Pena ele, Bolsonaro, há de merecer. E pegar.

Um rosebud para todos! Até quinta, Isabelas!

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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