Crônicas

Um cão uivando de dor!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

As chuvas, por aqui, cessaram. Mas resta pairando no céu um manto úmido de nuvens pesadas d’água. Tenho-me aqui, sobre a cama. Tenho os pés gelados – esse ar condicionado ainda me mata! – embora os mantenham enrolados em uma fina colcha que me acompanha em minhas noites insones.

Os ruídos me chegam pelos braços do ar. São vozes, músicas e campainhas. Sinto o pulsar desse coração companheiro e respiro o ar que chega e me alimenta. É isso mesmo; não apenas o escuto porque ele não é tão somente barulho, é a desesperada tentativa de todos os egos dando continuidade à vida em superfície.

Escuto. É um vizinho discutindo com outro; a Rede Globo, subliminarmente, impondo o seu padrão de qualidade e repetindo exaustivamente que “você se vê por aqui”; é a intriga, a lamentação em cima das dificuldades e todo o mais.

Mas há o barulho que não escorre, que fica contido dentro de minha cabeça, mas que é o mesmo desespero. Vejo todo o barulho e entendo que ele existe para que se mantenha a farsa do ilusório mundo da superfície.

Assim não se dá permanência apenas ao prazer, à diversão, ao gozo. Assim, garantem-se nossas ignorâncias e desumanidades. Mantendo o ego doente, somos doentes e precisamos da dor. Então, a dor é bendita porque nos força a viver a verdade! E é preciso senti-la.

Sinto eu que aquele que já não se sustenta em superfície deve abraçar a dor. Posso vê-la como uma corda jogada para dentro, como uma ponte que nos leva para dentro do nosso verdadeiro mundo: o nosso centro, o nosso interior.

E eu já não posso dizer que ir ficando no silêncio, ficando inteiro dentro, sem pontas para fora, é permitir-se à vida. Aqui, agora, contemplo o meu dragão e suas faces e suas garras! Divido-me em dois mundos: um é silencioso em si; o outro é apenas farsa. E nela estou morto!

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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