Crônicas

Um carta para o meu JR

Francci Lunguinho
Escrito por Francci Lunguinho

Durante quanto tempo as coisas foram perfeitas em nossas vidas?

Dentre as minhas memórias ele sempre ficou de pé antes de mim: cedo ainda vinha beijar-me com o nariz gelado e irradiar a minh’alma com a sua áurea. Nunca estava afoito nem demasiadamente calmo. Se eu acordasse triste ou desanimado, ele logo me convenceria a encarar o mundo numa perspectiva sagrada, encorajando-me a enxergar a magnitude da natureza ao nosso redor.

Seus passos conduziam-me aos mais belos passeios. Lado a lado, pé ante pé, como bons companheiros, vivíamos aventuras extraordinárias. Em quase todas as ocasiões preferíamos ficar juntos, era assim: se eu descia um ou dois lances da escada para pegar qualquer que fosse o objeto, muito discretamente ele se juntava a mim; ou se, porventura, resolvesse assistir um pouco de televisão, logo estaríamos disputando um espaçozinho no sofá, embora, no assento da sala coubesse três ou quatro de nós.

Completos como amigos. Indiferentes com os códigos da linguagem: sem esforços, um entendendo o outro.

Às vezes, por um motivo banal, se eu recusasse levantar-me da cama ou rejeitasse o seu convite para uma caminhada noturna, invariavelmente ele iniciava uma graciosa dança, tão somente para alegrar-me ou motivar-me a sair. Desse jeito: feito unha e carne, dominávamos os dias, as noites e as madrugadas.

O tempo torna-se curto quando o amor transcende.

Aprendi, com ele, que o passado guarda pedaços da gente, mas é o futuro que rouba nosso mais precioso tempo.

Aprendi, com ele, que a felicidade encontra-se no exato instante em que decidimos aproveitar as inspirações.

Aprendi, com ele, que o brilho dos olhos diz ‘eu te amo’ obedecendo às ordens do coração.

Aprendi, com ele, que o tempo é capaz de subtrair forças, porém, abriga a perenidade de tudo que é belo.

No entanto, nada é mais intolerante do que a correnteza da vida. Se nada de bom for feito, meu caro, nada de bom será preservado.

Sei disso após anos da uma convivência harmônica. Posso afirmar, com veemência, que não haverá arrependimento. Tínhamos esse compromisso, e cá estamos ainda, dispostos a corrermos todos os riscos até o suspiro final.

Aqui passso a me dirigir diretamente a você, meu Juju.

A realidade vai além das lembranças. Não sei quanto de mim você carrega, mas o meu peito transborda pelas cruzadas que vivemos juntos na terra. As feridas abertas com a sua fragilidade só se agravam, mas suportarei cada uma delas, e guardarei a nossa amizade com devoção e respeito.

A velhice chega e se ampara no silêncio para fazer a sua morada.

Dói-me muito vê-lo assim. É injusta a contagem dos anos para você, meu amigo. No entanto, entre idas e vindas, iremos nos reencontrar. É duro vê-lo morrer devagarzinho, dia após dia, perdendo a valentia de um feroz.

Não serei covarde: irei enfrentar a sua ida com a mesma vontade na qual você devoraria um biscoito. Não desejo que tudo seja como antes, porque o agora é significante e mágico.

Não vê-lo correr pelos gramados e pulando obstáculos é realmente cruel, mas, em compensação, isso abre uma brecha no meu tempo para dedicar-me a cuidar do seu bem-estar. Não há mais tantos beijos gelados nem cafungadas pela manhã, mas ainda há o mesmo olhar apaixonado de sempre.

Entristece-me quando desço as escadas e você torce para que eu volte depressa ou deseje que eu o carregue no colo. No sofá, você escolhe ficar sob meus pés porque a sua coluna já não o deixa subir.

A morte de um cão ofende e se dá antes mesmo de acontecer.

Ah, meu estimado amigo, deixa eu lhe contar alguns segredos: foi você quem me abriu o espelho mágico da vida. Foi você quem me ensinou a escolher os trilhos certos do destino. Foi você quem me guiou pelos caminhos da paz e do amor.

É você, meu Junior, quem tem o direito de ser feliz pela eternidade.

PS: Este texto vai, especialmente, para Patricia Ponce, quem me deu o cão mais obediente e equilibrado que já conheci.

PS 2: O Junior está bem, e este texto é sobre a velhice dele, por isso, o tempo verbal passado é usado no início.

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Sobre o Autor

Francci Lunguinho

Francci Lunguinho

Jornalista, radialista e Editor do portal Crônicas Cariocas.
Amante do jiu-jitsu, corridas de rua e cães. Também é editor da web rádio www.radiomatilha.com.br