Crônicas

Um dia challenge

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

O som dos pneus arranhando o asfalto chega estrondoso aos ouvidos de um morador do quarto ou sexto andares, pois sobe em ângulos, reverberando alto pelos prédios de uma rua composta somente por edifícios de 8 a 10 pavimentos, em ambos os lados. Passarinhos cantam, e são melhor perceptíveis quando as janelas e cortinas das casas estão fechadas. O cheiro do bolo do vizinho é incolor e atraente, assim como o sabor da primeira torta salgada que se faz é inesquecível. Apague a luz, acenda uma vela, deite-se de bruços, feche os olhos e deixe um ente querido massagear as suas costas, depois de uma longa jornada de trabalho. Nada disso é menos impactante por não se resumir a uma imagem.

Livros adultos em sua maioria não trazem ilustrações entre suas páginas; nem os 7 volumes do Harry Potter. Isso serve para deixar nossa criatividade fluir e fazer com que nossas mentes se atentem aos detalhes. Os mesmos detalhes que, no dia-a-dia, nos escapam à visão, e se nos perguntarem “quantas lixeiras existem na sua quadra“, ou “quantos prédios antes do seu distanciam a sua casa do morador de um apartamento da esquina na mesma calçada“, não saberemos responder. O mundo é repleto de imagens, as informações são cada vez mais imagens. Somos pessoas com rótulos diferentes, mas em comum temos redes sociais nas quais circulam milhares de imagens, e até temos contas para compartilhar apenas imagens, temporárias ou eternamente gravadas em nuvens pelas quais todo mundo passeia. “Andar nas nuvens” já significou estar “meio desligado“, que é o mesmo que desconectado. Nada mais old fashion: nuvens, hoje em dia, armazenam tudo que nos faz estar conectadíssimos a realidade virtual. “Realidade virtual“, que paradoxo. O mundo está, cada vez mais revendo seus sentidos.

Falando nestes, ainda existem 5 sentidos, os quais a maior parte dos seres humanos foram agraciados com: audição, olfato, paladar, tato e visão. São igualmente importantes, mas, nos dias de hoje, todos reverenciam as imagens, as fotos, o que é visível. “Uma foto vale mais do que mil palavras“,  alguém sentenciou uma vez. E pegou. Viralizou, na verdade.

Vou lhe fazer um desafio, o que também está na moda (vide mannequin challenge, ice bucket challenge ou a tal da baleia azul): por um dia inteiro – pode escolher entre os de feira, sábado ou domingo – preste-se a não deixar prevalecer a visão; desligue-se da TV, computador, smartphone, tablets, espelhos e até cinema. Faça tudo sozinha(o). Acorde no escuro do seu quarto e se deixe levar pelos sons externos. Tateie pelo que não se enxerga e encontre um copo d’água, beba-o, levante-se, dirija-se ao banheiro, lave o rosto. Sinta sua pele. Depois de fazer tudo o que precisar por ali, vá à cozinha e prepare um desjejum que lhe agrade. Deixe-se levar pelo prazer do aroma, da textura e dos sabores dos alimentos. Volte ao quarto e escolha uma roupa pelo tato. Vista-a. Esqueça acessórios. Aí, sim, deixe a luz natural adentrar o recinto. Calce sapatos e saia para a rua. Perceba os sons, os cheiros e como as pessoas andam para lá e para cá. Vá a praia, se tiver uma por perto, ou ao parque ou a uma praça. Depois, almoce em um lugar que você nunca foi. Peça um prato que você nunca comeu. Saboreie. Tente adivinhar todos os ingredientes ali presentes. Fique o tempo que quiser, relaxe, sinta a textura e o conforto da cadeira, a gentileza – ou não – dos clientes e trabalhadores. Depois ande por aí e experimente algo que nunca fez. Ajude um desconhecido. Vá a uma loja de perfumes. Pegue um ônibus para uma parte da cidade que você nunca foi. Puxe assunto com uma criança ou idoso que esteja por perto. Em casa, antes ou depois de sair, ligue o rádio ou coloque um CD. Cante e repita músicas, dance se tiver vontade. Faça do seu desafio um dia inesquecível, aprenda uma nova canção, apaixone-se por um cheiro (torne-o sempre presente daqui para frente) e por um sabor (que lhe traga boas memórias), abrace alguém que você não conhece e saiba responder uma das duas – ou as duas – perguntas que não estar atento aos detalhes no seu dia-a-dia lhe impossibilitavam de saber responder: 5 e 27, respondo agora. E ainda acrescento que, na minha calçada os prédios são mais simples do que os do outro lado. Existe uma única casa (sobrado) nesta selva de pedras. E, em frente ao edifício de número 16 na minha contagem, pintaram o chão, em tinta amarela, o número 17. Detalhes quase invisíveis que, com certeza, não passarão mais despercebídos quando eu voltar ou sair de casa.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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